22 dezembro, 2010

Tron: O Legado (Tron Legacy)




Para muitos adultos hoje na faixa dos 30, Tron, o original de 1982, é uma agradável lembrança da primeira experiência com efeitos digitais no cinema. O que hoje parece arcaico era na época extremamente inovador - não apenas o visual do filme, mas o próprio conceito de se usar computadores para criá-lo. Por isso, virou cult para muitos, um marco indissolúvel que já teve diversas histórias de continuações. Quando Tron Legacy foi finalmente confirmado e teve sua data de lançamento anunciada, muitos correram às locadoras para assistir o original novamente antes de ir ao cinema. Infelizmente, revelou-se que não é tão simples assim encontrar o Tron original - e nem a TV aberta o transmite com a frequência com que fazia nos anos 80. Felizmente, para a história do novo Tron em si, não há grandes perdas. Cita-se nomes do filme original - ou sobrenomes que revelam ligações familiares - mas o resto é uma história completamente nova.

O filme original tinha uma ligação com o medo ainda grande da humanidade na época de que a inteligência artificial dominaria o mundo. A IA ainda hoje não foi bem resolvida e a raça humana está em paz com seus eletrônicos, então o roteiro usou só um pouco daquele medo, e focou mais na busca de um filho por seu pai. Infelizmente, não resistiram à tentação de apelar para a temática religiosa, e muitas vezes ouvimos palavras como “criador” e “enviado” usadas para tornar Kevin Flynn e seu filho figuras endeusadas na história. Junte isso aos poderes especiais que o pai já tinha no filme original - por ser um usuário e não um programa - e temos a perfeita transcrição de um deus virtual.

O filme é a estreia na direção de Joseph Kosinski. Ele sai-se bem dando à trama coerência e ritmo, e comandando os jovens Garrett Hedlund - que foi o primo mais novo de Aquiles em Tróia - e Olivia Wilde - a Thirteen da série House. Ela está um pouco melhor que ele, mas nenhum dos dois chega perto do veterano Jeff Bridges, bastante confortável no papel que mistura um pouco do Flynn original com famoso Dude Lebowski. Sua versão mais jovem, apesar de impressionante, não conseguiu alcançar a qualidade de Benjamin Button, que usou a mesma tecnologia. Vale um destaque para a participação especial de Michael Sheen.

Os produtores foram espertos em não fazer uma continuação propriamente dita, mas os que conheçem e se lembram do Tron original podem ficar um pouco desapontados com a falta de novos paradigmas deste. Resistindo à tentação de fazer essa comparação, é um filme de ação muito bom com um roteiro interessante, e um visual fantástico.

12 dezembro, 2010

A Rede Social (The Social Network)




Na era das grandes fortunas criadas rapidamente por ideias geniais, não é de espantar que algumas histórias bastante interessante estejam acontecendo nos bastidores. Quando soube que iriam adaptar a história da criação do Facebook para o cinema, confesso que não tive uma boa reação. Pareceu-me algo a ser criado apenas para “pegar a onda” e, especialmente, ganhar dinheiro. Sim, as duas coisas estão corretas, mas há outras, que começaram a ficar claras com os nomes envolvidos no projeto, e que me ganharam de vez nos primeiros trailers.

David Fincher está nas prateleiras de qualquer cinéfilo colecionador que se preze. Depois de Seven, sua fama só cresceu, especialmente pela qualidade das suas produções. Com Benjamin Button, anterior a este, ele sedimentou de vez sua posição. E aqui faz por merecer com uma transcrição ótima do roteiro de Aaron Sorkin, cheia de movimento e tensão em uma história que poderia facilmente cair na chatice.

O elenco foi muito bem escolhido, com o cool & cult Jesse Eisenberg no papel principal, atuando muito bem como sempre, e vários rostos não tão conhecidos nos papéis secundários. Andrew Garfield saiu-se muito bem no não muito visto Leões e Cordeiros, e está preste a chegar ao estrelato como o próximo SpiderMan, para ficar em apenas um exemplo. Mesmo a atuação de Justin Timberlake, quem diria, é bastante boa.

É preciso dizer que, como qualquer história, há mais de um lado, e o filme, como o livro em que se baseou, apresenta apenas um deles. É bastante provável que o Mark Zuckerberg real não seja tão antisocial, e sabemos que o programador Dustin Moskovitz teve um papel bem maior na criação do Facebook do que o filme leva a crer. E, claro, no cinema temos que fazer alguns exageros para aumentar o efeito dramático. Ainda assim, feitas todas as concessões, é um grande filme, que merece ser visto mesmo por quem nem sabe o que é o Facebook.

28 novembro, 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1 (Harry Potter and the Deadly Hollows - Part 1)




Quando J.K. Rowling começou a escrever a série de livros do hoje famoso bruxo, talvez não antecipasse o tremendo sucesso que faria. Mas a série igualmente famosa de filmes estava fadada a levar multidões aos cinemas - além de, é claro, muito mais dinheiro para o cofre da autora, hoje a mulher mais rica da Inglaterra, tirando a rainha, claro. Por isso, é uma pena que não se tenha pensado na franquia a longo prazo, para que alguns elementos chave pudessem ser mantidos durante todos os filmes. Eles conseguiram preservar o básico, e muito importante: o elenco. Aliás, é um grande trunfo dos produtores da série que aquelas crianças da primeira parte tenham se desenvolvido em bons atores.

Mas uma parte igualmente importante não teve a mesma atenção, a pessoa que comandaria as produções. Os dois primeiros ficaram sob a batuta do terrivelmente médio Chris Columbus, e já deram um início não tão tecnicamente bom à saga do Harry Potter nos cinemas. Foi apenas no quarto filme, com Alfonso Cuarón, que realmente vimos o potencial da história na telona, mas infelizmente ele ficou apenas para aquele filme, deixando um legado difícil de ser igualado, que dirá superado. Tanto que a quinta parte é considerada por este crítico a mais fraca de todas, e foi justamente o diretor desta, David Yates, que se manteve até o final. Felizmente ele melhorou a mão depois.

Neste primeiro pedaço da última parte, tudo é tensão e expectativa. Não há mais Hogwarts, não há mais tempo para estudos e brincadeiras, agora a coisa é séria. Acrescentaram alguns nomes importantes ao elenco, como Bill Nighy, e trouxeram outros de volta, como John Hurt. Mas nenhum é adequadamente aproveitado, como boa parte do elenco, com atuações apenas boas - mesmo por outros grandes nomes do time como Ralph Fiennes e Helena Bonham-Carter. O único ator que mostra algum crescimento, quem diria, é o fiel escudeiro Rupert Grint. Ainda assim, neste momento tão especial para a série, tudo é médio demais.

Do terrível quinto filme para cá, a coisa melhorou. Mas não chega ainda ao ponto ótimo alcançado por Cuarón no Prisioneiro de Azkaban, o único da série que se pode dizer que é um bom produto cinematográfico. Se por acaso o autor ou autora da próxima grande série literária a ser adaptada para o cinema lê este blog, uma dica valiosa: junte um bom time, começe bem, e o mantenha até o final. Além de ganhar muito dinheiro, terá feito a alegria tanto dos fãs dos livros quanto dos cinéfilos.

07 novembro, 2010

Tropa de Elite 2




O primeiro Tropa de Elite chamou a atenção dos brasileiros por ir parar nas bancas de filmes piratas meses antes do lançamento. Quando finalmente chegou aos cinemas, mostrou que mereceria o boca-a-boca mesmo sem esse infeliz episódio. O segundo evitou o contratempo com um esquema fortíssimo de segurança - segundo a própria produção - e buscou ganhar seu terreno pela qualidade antes que pela pirataria. Conseguiu. Se no 1 assistíamos embasbacados um argumento irrefutável - as classes média e alta alimentam a violência e o tráfego de drogas - neste somos novamente levados à triste realidade do nosso país.

Confesso que quando soube da intenção de fazer esta continuação fiquei levemente desapontado. Continuações normalmente são produtos que buscam unicamente aproveitar melhor o lucro - não que, algumas vezes, sejam continuações que realmente valham à pena. Saí do cinema satisfeito, apesar de chocado. A mensagem bastante clara da podridão da nossa política veio aliada à uma demonstração única de amadurecimento do nosso cinema. É uma continuação com intuito comercial, mas que sabe aproveitar de forma excelente a própria existência.

Wagner Moura volta como o agora Coronel Nascimento, 16 anos depois do primeiro filme. Ele mostra também o grande ator que é, ao colocar na tela um oficial do BOPE que sofre as amarguras de conhecer o sistema por dentro e ter pouco com que lutar, e ao mesmo tempo é um pai em busca de um contato com o filho. A narrativa aproveita muito bem todo o elenco, com performances ótimas, e um ritmo excelente que não se perde.

Como o primeiro, não é um filme fácil de assistir. Dói, revolta e constrange. É o bom cinema com mensagem, e é uma história que todos, de certa forma, conhecemos e lamentamos. É uma produção com qualidades em tantos níveis que merece ser vista, não importa o quanto a poltrona incomode.

31 outubro, 2010

Juntos Pelo Acaso (Life As We Know It)




Às vezes uma boa comédia romântica começa pelo título. Usar o nome dos personagens como em Harry & Sally é uma ideia batida, mas funcional. Opções simplistas como Notting Hill são simpáticas, e as altamente descritivas como Quatro Casamentos e Um Funeral fazem a produção interessante já no poster. Títulos cool como Love, Acutally e He’s Just Not That Into You são também boas opções. Mas há que se evitar um título que tenda à pretensão, como este Life As We Know It - literalmente, A Vida Como A Conhecemos. A tradução brasileira Juntos Pelo Acaso não ajuda.

Pois essa discussão é o que pode haver de mais rico sobre este filme. Nada da pretensão do título se reflete na história, que é recheada daqueles clichês que sempre nos fazem rir mas vazia de qualquer outra coisa. Sem grandes atuações e, pior, sem nem mesmo uma cena memorável, não é um bom exemplo de um gênero já bastante fadado a preconceitos. De bom na fita, só mesmo as ótimas expressões do bebê que é o mote da história.

12 setembro, 2010

Amor à Distância (Going the Distance)




Comédias românticas não precisam de muito para agradar. O mote principal é basicamente sempre o mesmo - rapaz conhece garota, se apaixonam, há uma complicação, se separam ou não podem ficar juntos, superam a complicação ou separam-se de vez. Mas, dentro dessa receita, é possível acrescentar os mais variados temperos, sendo mesmo possível criar algumas obras primas. Sim, é difícil, e a maioria fica no médio - o que não é necessariamente ruim.

Amor à Distância revela a complicação logo no título. E pouco mais se acrescenta ao longo do filme. Num caso como esse, é preciso ter um bom punhado de cenas engraçadas no meio. A dupla formada pela diretora Nanette Bursteis e pelo roteirista Geoff LaTulippe sai-se bem nesse quesito. Há diversas partes hilárias, daquelas que só se consegue com um timing muito afinado.

A dupla principal é formada pela pantera Drew Barrymore e pelo Mac Justin Long - vai levar algum tempo até conseguirmos superar sua participação na ótima série de comerciais da Apple. Não acontece uma química especialmente boa entre os dois - um dos temperos que fazem uma obra prima do gênero - mas também não há falta dela. Mas sempre que Charlie Day aparece na tela, rouba a cena. O parceiro cômico foi muito bem utilizado e mutias das risadas acontecem quando ele aparece.

Numa época de poucos super lançamentos, e se você, como eu, não está em um lugar onde A Ressaca - que parece ser muito bom - estreou, é uma opção. Se Amor à Distância não chega a ser um excelente prato principal, ao menos não decepciona como sobremesa. E, como afirmei no primeiro parágrafo, ficar na média das comédias românticas é um bom resultado.

09 setembro, 2010

Nosso Lar




Anunciado como a maior produção cinematográfica brasileira até hoje, com números que são de fato espantosos no nosso mercado - e conquistando outros nas bilheterias - Nosso Lar pega carona na recente onda espírita no cinema brasileiro. Infelizmente, nem os números investidos, nem os obtidos, são sinais de qualidade - há vários exemplos disso, dos quais Avatar é certamente o mais retumbante. O filme é quase uma continuação da cinebiografia de Chico Xavier - foi baseado no seu livro psicografado mais famoso - mas consegue, mesmo com uma produção muito mais elaborada, ser ainda mais fraco que aquele.

A ousadia dos cineastas brasileiros em criar o visual do mundo espiritual descrito pelo espírito André Luiz a Chico Xavier está de parabéns. A forma como o fizeram, nem tanto. Chamar colaboradores de fora - como a empresa responsável pelos efeitos visuais Intelligent Creatures, o compositor Philip Glass e o fotógrafo Uri Steiger - não ajudaram a tornar o Nosso Lar factível como provavelmente a descrição do espírito tentou colocar. A cidade se parece com uma mistura de Brasília com a ideal Epcot City de Walt Disney. Só que feita de maquetes gigantes habitada por personagens em um chromakey ruim.

O uso do elenco é um pecado mortal por si só. Não me lembro de outra ocasião em que se conseguiu juntar tantos bons atores num mesmo filme brasileiro. E certamente não se encontrará outro em que foram tão mal utilizados. As atuações são muito boas quando não há diálogo. As falas, todas, sem exceção, são falsas e forçadas, e percebe-se que os atores têm dificuldade em fazê-las críveis. A falta de emoção dá a impressão de ser um grupo de amadores atuando - e está muito longe disso. Eles sofrem, mas o público sofre mais por ter que passar por tudo isso em meio a um filme arrastado, que carece de ritmo e erra em elementos básicos.

Wagner de Assis tem no currículo de direção apenas o médio e não muito conhecido A Cartomante, além das manchas graves de ter escrito quatro filmes da Xuxa. Ele praticamente não comanda o filme, que caminha nos próprios passos tortos. Este certamente será seu maior sucesso - já está perto de se tornar o maior sucesso do cinema brasileiro. Como toda história com temática muito fortemente ligada a religião, é um filme para espíritas, simpatizantes e para aqueles cujas convicções são facilmente conquistáveis. Esses acharão o filme sensacional, reconhecerão as descrições do livro e vibrarão a cada nova imagem mostrada. O público mais crítico provavelmente evitará apontar os diversos defeitos em troca de não iniciar uma discussão que não se conterá nos aspectos cinematográficos. E assim acabaremos idolatrando a mediocridade de uma produção que tinha potencial, mas não o alcançou.

04 setembro, 2010

Parada Crítica no PodCast do Na Casa do Mamãe

E eis que após mais de três anos de blog, duas coisas incríveis aconteceram - infelizmente nenhuma delas relacionada a cinema.

A segunda foi a citação do Parada Crítica no PodCast do Na Casa do Mamãe, capitaneado pelos amigos cuiabanos Leandro Magalhães e Luciano Marino. Você pode conferir aqui, lá por volta dos 6m30s:

PodCast do Mamâe 002 by Leandro Magalhães

E a primeira, citada pelo Luciano no próprio PodCast, é a mudança do layout do Parada Crítica.

Bem, obrigado Leandro e Luciano pela citação! E aproveito para fazer o mea culpa do layout: quando comecei o Parada Crítica, convidei meus amigos e colegas designers - que não são poucos - a se disporem a criar um template para o blog. Como podem imaginar, a resposta foi zero. Portanto, apesar de diferente, ainda uso um template pronto do Blogspot, e ainda aguardo por uma alma caridosa que monte um personalizado por mim, que nada entendo de programação.

A propósito ainda do PodCast, respondendo ao Leandro, vocês não verão uma crítica de Os Mercenários aqui. Este crítico se reserva o direito de não entrar em furadas que já são sabidas de antemão.

08 agosto, 2010

A Origem (Inception)




A história do cinema está repleta de grandes feitos e de retumbantes fracassos. Às vezes, um diretor tem um início de carreira estupendo, mas depois custa a voltar a acertar. Mas é ainda mais raro um crescimento tão avassalador quanto o de Christopher Nolan. Seu primeiro longa, Memento - que recebeu aqui a péssima tradução de Amnésia - é excelente. Brinca com a noção de tempo como poucos se arriscaram a fazer, e menos ainda acertaram. Mas poucos viram. Seu filme seguinte, Insônia, tem as suas qualidades, mas não chega a espantar. Então ele torna-se o responsável por reiniciar o herói Batman no cinema, e o faz com maestria em Batman Begins. Pouco depois lança O Grande Truque, em que mostra que domina a técnica cinematográfica como poucos. Volta a espantar o mundo com O Cavaleiro das Trevas, sua segunda aventura com o Batman que, apesar de ser um filme de super-herói, entra facilmente nas listas dos melhores filmes de todos os tempos. É um triunfo em tanto, daqueles que os espectadores e críticos pensam não ser possível superar, e que marcaria a carreira de Nolan. Pois estávamos todos errados. Já não me arrisco a dizer que ele atingiu seu ápice, mas estou seguro em afirmar que, em meros 6 longas, ele marca seu nome no panteão dos grandes cineastas com A Origem.

É perigoso tentar uma descrição em poucas palavras de A Origem. Mas é irresistível não dizer que é mais que um filme, é um acontecimento cinematográfico. Para o público geral, é uma produção excelente, daquelas que te deixa quase sem respirar o tempo todo, e que fazem suas quase duas horas e meia passar como se parecessem minutos. Para curiosos, estudantes de cinema e críticos, é uma realização incomparável. Dos menores detalhes de roteiro às minúcias dos vários níveis de produção, é impecável. É tão divertido quanto profundo, e tão bem amarrado quanto passível das mais variadas interpretações ao final. Em um filme em que literalmente tudo se mexe, é incrível que nada esteja fora do lugar.

O elenco poderia chamar atenção por si só. Grandes nomes como Leonardo DiCaprio, Michael Cane - parceiro recorrente de Nolan, Marion Cottilard e Ken Watanabe se juntam a novas promessas como Joseph Gordon-Lewitt, Ellen Page, Cillian Murphy e Tom Hardy. Tudo funciona muito bem, com interpretações excelentes, mas é também o único ponto que talvez ainda falte a Nolan dominar: retirar dos atores as performances inigualáveis. Talvez, porque, no tipo de filme que vem fazendo, há muitas outras qualidades que suprem essa ainda não totalmente completa técnica.

Ao contrário de muitos grandes filmes, que geram um efeito 8 ou 80 - ama-se ou odeia-se - , A Origem é capaz de arrancar elogios mesmo dos mais difíceis espectadores. Há que se ter muita coragem, sem falar em argumentos extremamente bem trabalhados, para ousar dizer que não é um bom filme. E, embora seja exagero falar em faculdades de psicologia no mundo todo dedicando uma cadeira à interpretação de A Origem, é certo falar que muito será discutido e escrito sobre como ele representa um marco na forma de fazer cinema, e que Nolan já pode ser considerado o cineasta da década. Imperdível, para assistir várias vezes sem cansar.

24 julho, 2010

O Bem Amado




O Bem Amado é uma das obras audiovisuais mais famosas do Brasil. Primeira novela em cores, exibida em um momendo político delicado mas fazendo suas críticas, e pouco depois transformada em série de TV - também uma das primeiras - é daquelas histórias que mesmo os que nunca assistiram conheçem um pouco. Há pouco tempo estreou nos palcos, e agora finalmente chega aos cinemas - com parte do elenco da peça.

O comando ficou com Guel Arraes, uma escolha praticamente perfeita. Depois de dirigir a adaptação para TV de O Auto da Compadecida, do filme original Lisbela e o Prisioneiro e o excelente Romance, sua forma de filmar casa muito bem com o ritmo esperado. E ritmo, aliás, é o que marca o filme. A agilidade cômica já conhecida de Arraes é aqui quase um personagem próprio.

O elenco desfila grandes nomes, começando por Marco Nanini no papel principal, repetindo o sucesso que deu ao personagem no teatro. Ele presta sua homenagem a Palo Gracindo - que interpretou Odorico na novela original e na série - fazendo bem diferente. O desfile de neologismos típico do personagem parece ter ficado ainda melhor nas mãos dele. Matheus Nachtergaele faz um Dirceu Borboleta um pouco mais contido que o da TV, assim como José Wilker faz um Zeca Diabo mais soturno. As Irmãs Cajazeras estão ótimas nas peles de Zezé Polessa, Drica Moraes e Andréa Beltrão. Melhor resumir dizendo que todos estão bem.

A crítica política é tão válida hoje quanto na década de 70, quando a novela estreou, e é incrível perceber no caricato Odorico os políticos que vemos todos os dias nos noticiários - e em breve bem mais no horário político. Mas, afastando-se do cinema de combate, O Bem Amado é acima de tudo um filme muito divertido, gostoso de ver, e que merece seu ingresso.

23 julho, 2010

Shrek Para Sempre (Shrek Forever After)




Quando o primeiro Shrek foi lançado, foi um golpe e tanto na batalha que acontecia então entre a Dreamworks Animation e a Pixar - e de lambuja criticava um pouco de tudo na Disney também. Tinha a graça e o sarcasmo, as referências, o ritmo. O segundo conseguiu manter um pouco disso, mas o terceiro foi uma queda abismal, e muitos acharam que o querido Ogro não mais seria visto. Mas a Dreamworks resolveu dar um final mais apropriado para sua cração mais famosa, e se esforçou na quarta e última parte da história.

Sensivelmente melhor que o terceiro - o que não é difícil - e também um pouco acima do segundo, esta parte consegue trazer de volta um pouco das qualidades que nos fizeram adorar o primeiro. Tem um roteiro bastante trabalhado, e uma modelagem sensacional. E é o segundo Shrek a ser feito em 3D, o primeiro nas telonas.

Mas tivemos recentemente outro capítulo final de uma famosa franquia de animação por computador. E, por mais que o pessoal da Dreamworks tenha se esforçado, não chegam a fazer cócegas na qualidade que Toy Story 3 apresentou. Exceto por um ponto: a Dreamworks soube usar o 3D melhor que a Pixar até agora. Ainda assim, para quem guarda boas lembranças do filme original, vale a pena desdedir-se do ogro verde em grande estilo.

17 julho, 2010

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works)




Depois de quatro produções fora de Nova York - na verdade, fora dos Estados Unidos - Woody Allen volta à sua amada cidade em Tudo Pode Dar Certo. E é mais que uma volta à Grande Maçã, é também um retorno de Allen ao estilo de filme que o tornou conhecido, a comédia sarcástica. Para quem gosta e conhece a carreira do diretor, é como voltar ao passado na melhor forma.

A temporada fora deu a Allen uma visão levemente diferente do que fazer com uma câmera. Usando os mesmos ângulos básicos que sempre gostou, e evitando clichês paisagísticos como cenário, ele novamente mostra o retrato de um pedaço muito específico da cidade - aquele que reflete o personagem principal e as mudanças pelas quais ele passa durante a história. Que, aliás, é recheada dos diálogos excelentes que Allen sempre consegue encaixar.

Ele trocou também sua musa dos últimos filmes por Evan Rachel Wood. Perdeu um pouco em exuberância, mas não perdeu nada em beleza e, especialmente, ganhou um pouco em qualidade da atuação, que foi aqui essencial. A interiorana quase inocente é um papel falsamente fácil, especialmente quando confrontado o tempo todo com o gênio ranzinza interpretado por Larry David - um rosto pouco conhecido aqui, mas que cai como uma luva na história. O embate entre os atores é excelente, e melhorado e apimentado com os personagens que complementam a trama.

Ácido em cada crítica não velada, com longos diálogos complexos e a ironia bem aparada pelos anos de experiência, esta volta de Woody Allen às suas origens nos presenteia com um filme muito divertido - ao menos para aqueles com disposição a compartilhar de algumas das opiniões do diretor. Infelizmente, como nas suas origens, é um Allen bem mais restrito, e por isso mesmo com bem menos chances de chegar às salas comerciais. Se tiver a chance, não perca.

16 julho, 2010

Encontro Explosivo (Knight and Day)




Verão no hemisfério norte é significado de grandes estreias de cinema e blockbusters enlatados. Tom Cruise e Cameron Diaz em um filme de ação/romance é praticamente a descrição de um blockbuster enlatado. Feito para pescar espectadores ansiosos por mais do mesmo, Encontro Explosivo é o que podemos chamar de filme de passagem. Para os atores, é a passagem entre uma produção melhor e outra, uma forma de manterem-se no foco dos holofotes. Para o público, uma forma de passar duas horas numa poltrona sem nada na cabeça.

E, ao que parece, também é um filme passageiro para o diretor. James Mangold tem em seu currículo o denso Garota Interrompida, o intenso Identidade e a ótima cinebiografia Johnny & June. Aqui, ele pega os vários clichês e tempera só de leve com um pouco de humor.

Cruise e Diaz não se esforçam nos seus papéis. Ele chega a incomodar um pouco com o espião eternamente calmo e controlado, e ela usa e abuza da beleza e dos olhos azuis. Há um ou outro bom momento na fita, mas é só. Mas, claro, a história é feita sob medida para pendurar-se na fama do casal principal.

Encontro Explosivo não tem a pretensão de ser um novo Missão Impossível ou um James Bond - fontes nas quais bebe indiscriminadamente - ou qualquer outra pretensão, na verdade. Bem feito apenas o suficiente para não ser ruim, é daqueles filmes que não se perde nada se for trocado por outro um pouco mais promissor.

01 julho, 2010

Toy Story 3 (Toy Story 3)




Que a Pixar está anos à frente dos demais estúdios de animação por computador é um fato sabido há tempos. Mas mesmo assim, ao ouvir que estavam planejando um terceiro Toy Story, muitos lembraram do fraco terceiro Shrek, pensando se não seria um movimento errado da Pixar. Os primeiros detalhes da história apareceram, mas não convenceram. E, ainda assim, eles conseguiram novamente. Arrisco-me a dizer que o terceiro é o melhor dos 3 Toy Story.

Claramente focado no público um pouco mais velho, mas sempre sem deixar de lado os pequenos, a história é forte no ponto certo, divertida e com a aventura de sempre. Tem uma ou outra cena de mais tensão, mas é um roteiro extremamente bem resolvido, que faz jus aos filmes anteriores e não deixa a dever para as últimas excelentes produções da Pixar. Apenas o uso do 3D que, como em Up, não encanta tanto quanto poderia.

O festival de referências está mais presente do que nunca, e o trabalho na personificação dos brinquedos é especialmente bom. Com o que já conhecíamos de Woody, Buzz e sua turma, eles conseguem aprofundar a forma como o relacionamento entre eles acontece, mesmo com a introdução de vários personagens novos. Lee Unkrich assumiu a direção de John Lasseter sem deixar a bola cair.

Numa avaliação puramente técnica, a alternância entre a aventura e o humor fazem com que o filme seja atraente o tempo todo, quase sem pontos baixos. O que marca mais uma vez aquela que é a principal característica da Pixar, o trabalho intenso de roteiro. Se você por acaso não assistiu aos outros, corra para a locadora mais próxima e corrija logo isso. E então não perca o terceiro.

25 junho, 2010

O Golpista do Ano (I Love You Phillip Morris)




Um filme que retrata a história real de um homem que viveu de pequenos e grandes golpes, com uma capacidade incrível de sempre fugir e se safar, até ser definitivamente preso. Não, não estamos falando de Prenda-me Se For Capaz de Steven Spielberg com Tom Hanks e Leonardo DiCaprio. Há uma outra informação que muda completamente o personagem principal: ele é homossexual. Apesar do mote ser praticamente idêntico, a história de O Golpista do Ano é totalmente diferente.

Além desse fator principal, este é dirigido por uma dupla e estreantes, Glenn Ficarra e John Requa. Ambos trabalharam até então apenas como roteiristas - e sempre em dupla - de filmes bobos como Como Cães e Gatos e sua continuação. E, apesar da presença de Jim Carrey e seus trejeitos, este não é só uma comédia. A dupla trabalhou bem, conseguindo um resultado honesto na primeira investida como diretores.

O que foi muito ajudado pelo elenco. Jim Carrey, como sempre em seus filmes com um pouco mais de drama, luta para controlar seus impulsos humorísticos, e consegue na maior parte do tempo. A participação especial do brasileiro Rodrigo Santoro é muito boa, mas o destaque da fita vai para Ewan McGregor. Como seus conterrâneos ingleses, Ewan atua com o corpo todo, exibindo trejeitos de liguagem corporal que tornam seu personagem - o Phillip Morris do título original - no melhor da história. E, ao contrário do que se pensaria considerando que o personagem é homossexual, ele consegue isso não pelo exagero, mas pela contenção.

A dupla de diretores - que também escreveram o roteiro - poderia ter apostado um pouco mais na força da história, que ainda leva muito para o humor. Ainda assim, é um filme interessante, que merece a atenção que chamou.

12 junho, 2010

Cartas Para Julieta (Letters To Juliet)




Contrariando o calendário, um drama/comédia romântico típico do Valentine's Day chegou a nós justamente no Dia dos Namorados. Cartas Para Julieta é a nova produção de Gary Winick, que fez De Repente 30, Charlotte's Web e mais recentemente a bobagem Noivas em Guerra. Neste, ele exercita melhor seus dotes de diretor, colocando na tela uma história realmente interessante por trás do conhecido e esperado "garota conhece garoto o no começo não se gostam mas depois se apaixonam". E tem também algumas, com o perdão do trocadilho, cartas na manga.

A primeira é a paisagem deslumbrante da Itália, bem aproveitada na urbana Verona e também no trecho road trip do filme, pelo interior do país. Cores vibrantes do verão local, reforçadas por um figurino igualmente alegre, tudo bem fotografado. A trama segue um bom ritmo, e Winick aproveita bem os minutos da fita para contar sua história.

Sua atriz principal é a já quase onipresente Amanda Seyfried, alternando entre o papel da doce donzela com o da quase vilã nos últimos filmes. Ela contracena com um Gael Garcia Bernal em uma ponta cômica, e um tanto exagerada, e com o inglês Christopher Egan, em uma atuação bastante decente. Mas sua segunda carta na manga é Vanessa Redgrave. Um dos grandes nomes do cinema mundial, com suas mais de cem produções no currículo, ela domina cada segundo em que aparece, e sem esforço. É sensacional vê-la grandiosa em um papel coadjuvante.

Apesar de casar bem com o calendário daqui - que foi propositalmente selecionado, causando o "atraso" de algumas semanas no lançamento nacional - também entrou no mesmo período de alguns grandes lançamentos, os blockbusters do verão norte-americano, fazendo com que perca um pouco da atenção. Não é exatamente o filme imperdível, mas é bem feito e merece o ingresso.

26 maio, 2010

Fúria de Titãs (Clash Of The Titans)



Praticamente todo jovem adulto de hoje assistiu a um dos maiores clássicos da Sessão da Tarde, a versão de 1981 de Fúria de Titãs. A história épica de Perseu e sua luta para salvar a Princesa Andrômeda encantou crianças nas suas várias reapresentações na TV, com sua animação no clássico stop-motion de Ray Harryhausen – sem mencionar os cenários e figurinos mambembes da época. A intenção de refilmar Fúria de Titãs foi recebido com uma rara euforia – remakes não costumam ser bem vistos de cara. Mas, afinal de contas, não seria de todo ruim sermos novamente encantados pelo potencial incrível que a tecnologia de hoje permite a um filme desse tipo.

As primeiras notícias animaram ainda mais os ansiosos cinéfilos. Louis Leterrier, responsável pelo último Hulk e pelo ótimo Cão de Briga, é um bom nome para dar vida ao projeto. Sam Worthington, o atual queridinho de Hollywood, poderia encarar um Perseu eficiente. A primeira notícia ruim veio nas primeiras imagens reveladas da produção: Perseu tinha o mesmo cabelo curtíssimo militar que mostrou em Avatar. E pior, no meio de todos os outros personagens com madeixas generosas, como era de se esperar na época. Pouco depois, a segunda bomba: depois de terminadas as filmagens, resolveram transformar o filme em 3D. Ou seja: ele não foi filmado no formato, foi convertido, e isso não dá nem de longe o mesmo efeito. Descobrimos depois que o roteiro passou por diversas mudanças – no sentido de mudanças demais para estar bem resolvido. E aí só nos restava esperar a estreia.

O elenco tem nomes muito bons, que incluem Liam Nesson, Ralph Fiennes, Pete Postlethwaite e Jason Flamyng, junto a algumas novidades promissoras como Alexa Daval. Há, certamente, bastante aventura. Na verdade, há talvez aventura demais. Além do visual anacrônico, a motivação que faz Perseu afinal ir à luta não fica clara. A participação da personagem Io ainda mistura mais as coisas, ora uma espécie de oráculo ora uma brava guerreira à altura dos melhores homens de Argos. Enfim, uma série de confusões que consegue fazer de uma história mítica algo inverossímil, mesmo para o cinema.

E, nesse ponto, desejamos que o remake propriamente dito fosse mantido. Talvez uma simples atualização, tentando ater-se ao máximo ao roteiro original, tivesse funcionado melhor. Não deixa de ser divertido e visualmente deslumbrante mas, especialmente para quem ainda tem alguma lembrança da Sessão da Tarde, parece que algo se perdeu.

21 maio, 2010

Robin Hood (Robin Hood)



Existem basicamente dois motivos para filmes uma história que já tem uma porção de versões: fazer muito melhor, ou fazer uma versão muito diferente. Mas, notem, diferente mas ainda a mesma história básica. Ridley Scott optou por uma terceira via, contar a história que acontece antes da história. Antoine Fuqua tentou algo parecido em 2004 com o seu Rei Arthur. O resultado de Scott é também parecido, um filme sobre um personagem conhecido em que ele está irreconhecível.

Praticamente nenhuma das características clássicas de Robin Hood está no filme, salvo alguns personagens – na verdade, seus nomes. Nenhum problema nisso por si só, é possível mostrar de forma interessante a construção de personalidade do herói. O problema é que não há a formação da sequência lógica que se imagina num caso como esse, aquela sensação de “Ah, então é por isso que ele é assim”. O Robin Hood de Scott é um truculento soldado sisudo. Ou, em outras palavras, é o Maximus Decimus. Inclusive interpretado por um desmotivado Russel Crowe. Sua atuação parece ainda pior quando comparada ao trabalho de Max von Sydow e Cate Blanchett que, mesmo sem o roteiro permitir, conseguem alguma profundidade nos seus personagens. E também são os únicos a demonstrar algum esforço.

O filme tem um ritmo terrível, quebrado e cansativo, e conta uma história inverossímil de forma fraca. De realmente bom na fita, só a fotografia sempre muito boa nas produções de Scott. Comparado com as duas últimas versões da história dos homens de Sherwood, que se diferenciam pelos sobrenomes “Herói dos Ladrões” e “Príncipe dos Ladrões” e são ambas bastante aceitáveis, a nova parceria Scott-Crowe perde de longe.

18 maio, 2010

Querido John (Dear John)




Nicholas Sparks é um escritor com um pé no cinema. Dos seus 16 romances publicados, metade foram ou estão para ser filmados. Na última adaptação já terminada, A Última Canção, ele arrisca também como roteirista. Sparks escreve bem, com bastante foco nos personagens e gosto pelos conflitos causados por problemas de saúde, psicológicos ou desastres que levem à separação do casal. O tipo de história que costuma das bons dramas no cinema. Assim são Diário de uma Paixão, Noites de Tormenta e Um Amor para Recordar. Querido John chega às salas quase junto com A Última Canção, mas aparentemente partindo para caminhos opostos em trabalho cinematográfico.

Querido John é um drama típico. Estudantes e interessados em cinema conseguem reconhecer facilmente cada parte do roteiro, seguindo cada ato e cada marcação, cada alto e baixo da história. E, por isso mesmo, conseguem reconhecer também uma assustadora perda de ritmo no final do segundo ato, a ponto de podermos praticamente suprimi-lo sem perda. Assustador porque estamos falando do diretor Lasse Hallström, que nos deu os ótimos Regras da Vida e O Vigarista do Ano, e os excelentes Gilbert Grape e Chocolate.

Ele apostou em um elenco variado para Querido John. A mais nova candidata a Namoradinha da América, Amanda Seyfried, está presente. Depois de despontar em Mamma Mia!, começou a aparecer pouco a pouco em cada vez mais filmes. Fez Garota Infernal, este e em breve volta às telonas em Chloe – aqui chamado O Preço da Traição – e em Cartas a Julieta. Alternando entre o doce/inocente e o forte, ela faz sua Savannah andar conforme o ritmo do roteiro – inclusive perdendo-o naquele terceiro quarto. Channin Tatum foi uma escolha quase arriscada para o John do título. Sua atuação pouco treinada casou bem com o papel do militar sisudo e distante, mas cai por terra nas cenas em que tem que demonstrar emoção de fato. A pequena salvação vem de Richard Jenkins como o pai limítrofe, um papel difícil que ele preenche sem esforço. O resultado final é um filme que parece ter sido feito como um passatempo despretensioso para a equipe. E é justamente assim que deve ser assistido.

09 maio, 2010

Homem de Ferro 2 (Iron Man 2)




Quando o primeiro Homem de Ferro foi lançado, ainda não se sabia dos planos da Marvel de, mais à frente, filmar Os Vingadores. Então as pequenas referências – e a grande referência final – foram recebidas com entusiasmo pelos fãs dos heróis ao redor do mundo. E o melhor: o filme, por si só, mesmo para quem não era familiar às referências, era excelente. De lá para cá, a história se confirmou, já sabemos quem será o Thor e o Capitão América. Fazer um segundo Homem de Ferro precisava ser mais do que pegar carona nos ganhos financeiros. E isso só se faz continuando muito bem a história.

E continuam tão bem que o fazem do exato ponto em que o anterior acabou, acrescentando as pitadas certas de novas informações e algumas surpresas. A dupla Jon Favreau e Robert Downey Jr. Está de volta, com a mesma forma do primeiro, em uma fita com nem tanta ação quanto se espera de uma continuação de filme de herói. A trama continua bem trabalhada e contada. Acrescente a isso uma estonteante Scarlett Johansson, um eficiente Mickey Rourke e um sarcástico Sam Rockwell. Uma pena que não conseguiram manter Terrence Howard como Rhodey – apesar de que a troca por Don Cheadle trouxe ganhos na atuação.

Tudo o que havia no primeiro está no segundo, melhorado. Especialmente o humor, bem trabalhado no Tony Stark narcisista de Downey Jr. Evitaram, felizmente, a mal afamada transcrição para 3D – quando não há filmagem com duas câmeras, mas uma conversão feita em computador, depois – e reforçaram os efeitos especiais. Com isso, conseguiram o fôlego necessário para esperar pelo ainda distante 2012, quando supostamente o filme dos Vingadores será lançado. Mas, se quiser ter um gostinho do que está por vir, como sempre na última safra de filmes da Marvel, não saia antes de terminar os créditos.

05 maio, 2010

As Melhores Coisas do Mundo




Há tempos os cinéfilos admiram o cinema europeu e, por consequência, o de alguns países que optaram por seguir o modelo, como a Argentina. A grande qualidade das produções desses lugares está na capacidade de contar uma boa história a partir de muito pouco, de um mote que, substancialmente, não pareceria interessante. Ou, em outras palavras, contar histórias tão cotidianas que precisam ser muito bem trabalhadas para gerarem bons filmes, diversas vezes a partir de quase nada. Quando o Brasil optou por utilizar o cinema como veículo de conscientização social, expondo suas mazelas no afã de comunicar com um público que, na prática, não é o que entra nas salas para esse tipo de filme, perdeu a chance de entrar com o pé da arte no cenário mundial – entrou sim, mas aos solavancos. Felizmente, já a alguns anos, surgem vez por outra iniciativas que valem-se do princípio de simplesmente contar bem uma história, que pode ser a de qualquer um.

As Melhores Coisas do Mundo é um desses casos. Pelas mãos de Laís Bodansky, que nos deu a pérola Bicho de Sete Cabeças e, recentemente, o Chega de Saudade que é também representante da vertente que citei acima. Ela coloca na tela a história de um adolescente. Nem rico, nem pobre, mas de uma classe “média média” que raramente se encontra na ficção. Com as dúvidas e comportamentos típicos de um adolescente, e problemas também – exceto por um, não tão típico, mas que não é o centro da trama. O centro, aliás, é nada mais do que um retrato de um período curto de tempo na vida de Mano.

E isso funciona como um bom filme? Se for bem feito, como é o caso, sim. Nada de conflitos épicos, nada de problemas sociais, apenas uma história capaz de nos tocar a todos. Porque, não importa quais as diferenças entre as nossas vidas e a de Mano, quase todos fomos adolescentes com as mesmas dúvidas, comportamentos e problemas. Não é um filme de atuações espetaculares. Francisco Miguez, o protagonista Mano, ainda precisa de algum trabalho, e também o seu irmão na trama, o ídolo teen brasileiro do momento Fiuk. Grandes nomes como Denise Fraga e José Carlos Machado, os pais de Mano e Pedro, são coadjuvantes no filme da mesma forma como os pais devem se sentir na vida dos filhos jovens. A turma da escola como um todo segue a mesma qualidade.

Mas, ainda assim, há um quê de documentário. Se não pelas atuações, mas pelos acontecimentos. Nada de muito trágico – exceto pela visão dos próprios adolescentes – acontece. É um retrato que poderia muito bem acontecer ao seu filho. Retiradas as referências tecnológicas que só hoje são possíveis, poderia ter acontecido a você. E é nas lembranças, ou na relação íntima que conseguimos rapidamente fazer com Mano e sua turma, que o filme se sustenta. É excelente vermos As Melhores Coisas do Mundo não só no circuito comercial, mas com bons números e expressão na mídia. É um sinal de que, ao menos no cinema, estamos amadurecendo.

01 maio, 2010

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland)




Quando os primeiros boatos sobre uma versão de Alice no País das Maravilhas a ser filmada por Tim Burton saíram, cinéfilos do mundo todo refestelaram-se. É, afinal, um encontro ao qual se pode dar a rara qualificação de “mais-que-perfeito”. Depois do desenho da Disney e das várias versões filmadas – a maioria motivo de vergonha alheia – a história fantástica mais conhecida do mundo merecia um filme à altura, e ninguém melhor para levar os devaneios de Lewis Carrol apropriadamente para a telona que Burton. O boato virou notícia, as primeiras imagens começaram a aparecer, então os trailers, tudo ótimo, tudo parecendo levar ao que esperávamos que íamos ver. Entendemos que não seria, afinal, a história original – ou uma mescla dos livros Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, como grande parte das produções anteriores – mas sim uma espécie de continuação, uma Alice mais velha voltando a Wonderland.

E, de fato, o Alice de Burton é tão fantástico quanto se esperava que fosse. Colorido quando se deve, sombrio quando convém, com o ritmo que o diretor sempre consegue segurar, e mesmo aplicando muito bem os efeitos digitais que ele sempre evita – mas que aqui são indispensáveis. O elenco, então, não poderia ser melhor. Os eternos parceiros Johnny Depp, como Chapeleiro Maluco, e Helena Bonham-Carter como a Rainha Vermelha – e que na verdade tem os trejeitos da Rainha de Copas – estão excelentes. Mia Wasikowska desponta com Alice, especialmente contracenando com tantos nomes bons. E nos personagens animados, dubladores de peso – Stephen Fry como o Gato de Cheshire, Michael Sheen como o Coelho Branco e Alan Rickman como a Lagarta, entre outros bons nomes. Tudo isso bem comandado.

Mas, apesar dessas várias qualidades, e apesar mesmo de ser difícil apontar defeitos verdadeiros – deixando de fora a utilização do 3D, que não é das melhores – falta algo. O roteiro tem os traços característicos de Burton, mas tem também aquele “ranço” Disney, que algumas vezes tolhe o potencial de uma história. É isto, possivelmente, o que nos incomoda, as concessões que o diretor fez à produtora, tudo o que foi retirado e evitado. Ficamos com uma sensação de que faltou “mais Burton”.

28 abril, 2010

Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock)




Assistir um filme de Ang Lee é quase sempre uma surpresa. Desde que ouvimos seu nome então muito pouco conhecido como escalado para comandar uma adaptação de Jane Austen, Razão e Sensibilidade, estranhamos a escolha de um asiático para uma história tão inglesa, mas o resultado ficou bom, e passamos a prestar mais atenção. Ele fez mais dois filmes “ocidentais” antes de voltar às suas origens – e também de voltar a despertar a nossa admiração com O Tigre e o Dragão, que é excelente. Ele ainda foi escalado para a iniciativa The Hire da BMW, e escolhido para o primeiro – e não muito elogiado – Hulk, e então nos entregou o excelente Brokeback Mountain. Recentemente, voltou aos holofotes com o belo Desejo e Perigo.

Aconteceu em Woodstock tem a assinatura de Lee, uma assinatura que é difícil de perceber. Ele dirigiu esta história dos bastidores do mais famoso festival de música de forma bastante compassada, evitando inteligentemente tudo o que se pensaria ver em um filme sobre a ocasião – não há uma imagem sequer de um show ou de um artista, e o palco em si é mostrado apenas na distância – grande – em que é vista pelo protagonista. A única imagem típica é o famoso banho de lama, que só aparece por ser um dos únicos acontecimentos lembrados do festival do qual Elliot participa.

Lee também acertou na escolha de atores, equilibrando nomes desconhecidos em papéis principais com atores famosos como coadjuvantes. Assim temos artistas como Eugene Levy, Imelda Staunton, Emile Hirsch, Paul Dano e Geoffrey Dean Morgan em participações especiais ótimas, enquanto a cena pertence mesmo a Demetri Martin no papel principal do jovem Elliot, que pescou a oportunidade e trouxe o festival à pequena cidade em que seus pais tinham um pouco frequentado hotel. O estilo de direção de Ang Lee é capaz de tirar atuações bastante contundentes, e podemos ver o efeito aqui claramente, especialmente nas pontas feitas pelos coadjuvantes.

Com tudo o que já foi dito e mostrado sobre o Festival de Woodstock, este filme preenche o espaço que ainda havia para o assunto: como a pessoa responsável pelo festival acontecer onde aconteceu viveu o momento. É um filme interessante, engraçado e bonito, sem precisar apelar para nenhum truque. Apenas uma história que poucos conhecem.

09 abril, 2010

Como Treinar Seu Dragão (How To Train Your Dragon)




À época do primeiro Shrek, a Dreamworks disputava o posto de melhor estúdio de animação por computador. Essa época já passou – a Pixar deixou todos bem para trás há algum tempo – e agora a Dreamworks luta para ser a melhor depois da Pixar. Como Treinar Seu Dragão é um passo bem dado rumo ao objetivo. Mas para chegar lá eles usaram de alguns artifícios, digamos, não tão legais. De cara, temos uma história que remete a vários roteiros trabalhados e retrabalhados pela Disney – e eventualmente pela própria Pixar: um personagem central deslocado do seu ambiente social encontra o seu “caminho de volta” ao associar-se com um outro personagem que, inicialmente, é justamente o oposto do que o que deveria ser buscado. Parece familiar?

Então vamos para a segunda similaridade, os diretores. A dupla Dean DeBlois e Chris Sanders dirigiu uma das melhores animações da Disney dos últimos anos, Lilo & Stitch. Que, por sinal, usa exatamente o mote acima. E mais: o dragão que o personagem descolado vai treinar lembra, e muito, Stitch. Na fisionomia e também no comportamento. Ok, agora que eu escrevi isso, você que ainda não assistiu, quando assistir, só vai ver o Stitch no meio dos vikings.

Mas, verdade seja dita, temas de animações podem, de forma geral, ser resumidos a três ou quatro motes básicos. Importa mais a forma que o conteúdo. E a forma aqui está, sim, muito boa. O desenho dos personagens é bom, e a qualidade da modelagem é excelente, conferindo personalidade às vastas barbas vikings tanto quanto aos modos adolescentes dos personagens juvenis. As sequências de ação foram bem trabalhadas, e bem moduladas com o drama+comédia característico, em um ritmo que funciona direitinho.

E, além de todos esses aspectos técnicos, há o que realmente importa para o público: é divertido. Bem mais que o médio Monstros x Alienígenas que o antecedeu, e mesmo que o terceiro Shrek. Depois de uma sequência complicada da Dreamworks, em que continuações não funcionaram bem, e novos títulos tampouco, é um alívio para a companhia de Spielberg.

06 abril, 2010

Chico Xavier




Biografias são peças difíceis de serem criadas. Há pouco espaço para se falar da vida de personalidades sempre interessantes o suficientes para merecerem uma. Cinebiografias, assim, são ainda mais complexas, pois o espaço é sensivelmente menor. Por isso, quando bem feita, resulta em um filmaço, partindo para o lado oposto com praticamente qualquer deslize. Nesse tipo de história, escrita ou filmada, faz-se concessões e cortes, mas sempre visando dar um retrato mais ou menos fiel da pessoa, normalmente cobrindo aspectos que poucos conhecem. Foi assim com a história de Ray Charles, que mostra o conflito entre o sucesso na carreira e desabamento pessoal pelas drogas; com João Estrella e a mistura do rapaz bem educado e carismático com o tráfico; Charles Chaplin, entre o seu cinema, suas mulheres e sua figura política. Nos bons exemplos, sempre há algum aspecto não muito engrandecedor mostrado.

O filme sobre Chico Xavier não vai por esse caminho. Sofre do problema das cinebiografias ruins, que é passar um retrato caricato da personalidade mostrada. Faz a péssima opção pelo maniqueismo nada disfarçado, mostrando uma pessoa que parece uma princesa saída de um roteiro ruim recusado pela Disney, com sua candidez e bondade inimagináveis. E basta uma pesquisa rápida para sabermos que nem mesmo Chico Xavier foi assim. Deixaram convenientemente de lado, por exemplo, pedaços do início da "carreira" de Chico em que ele participava com outros médiuns de sessões que mais lembravam um show de ilusionismo, com truques que incluiam jogos de luz e espelhos e fumaça, o que impressionava facilmente as comunidades carentes que eles também convenientemente escolhiam para estar. Ao contrário do que possa parecer, abordar momentos como esse não tiram a dignidade do retratado. Ao contrário, possivelmente mostrando mais humanidade consegue-se criar uma ligação ainda mais forte com o sentimento que se quer despertar nos espectadores.

Como peça cinematográfica, à exceção dos deslizes de roteiro, é um bom filme. A opção de pontuar a história com a entrevista de Chico no programa Pinga Fogo, por exemplo, é excelente. Há algumas atuações muito boas, como a do menininho que faz Chico criança, e Luís Melo como seu pai. Angelo Antônio e Nelson Xavier preocupam-se muito em não torná-lo muito caricato quando, na verdade, ele era - o que fica em claro nas ótimas cenas reais do programa mostradas ao final. Algumas participações femininas muito boas foram infelizmente pouco utilizadas.

O filme foi feito não para prestar uma homenagem a Chico Xavier, mas sim para perpetuar a aura mística que sua vida criou - ou seja, pouco mais que truques para uma comunidade carente um pouco maior. Havia mais a se falar dele e, repetindo, coisas que provavelmente ajudariam a torná-lo uma figura ainda mais interessante. Afinal, ele escreveu mais de 400 livros. Se foram ou não ditados a ele, não importa, é uma produção mais vasta do que a maior parte da população brasileira vai ler em toda a vida. Optar pela tendenciosa forma de mostrá-lo como um santo só nos afasta do homem extraordinário que ele certamente foi.

26 março, 2010

Ilha do Medo (Shutter Island)




Martin Scorcese e os cinéfilos têm um caso de amor e ódio. Ele é inegavelmente um dos maiores diretores, e no seu currículo estão peças primordiais da sétima arte como Touro Indomável, Taxi Driver, Os Bons Companheiros, para citar apenas os mais famosos. Sua produção recente tem altos e baixos, alternando entre o muito bom e o regular. Ilha do Medo se enquadra nesta última categoria, apesar da produção bem trabalhada e das atuações convincentes.

Ilha do Medo sofre de um mal gravíssimo no cinema: roteiro. E que é agravado por alguns deslizes de direção também, como uma das cenas iniciais em que o protagonista chega à ilha e uma música sinistra alta toca com claro intuito de provocar o suspense. A música é totalmente desnecessária ali, tanto que mais à frente uma cena parecida fica muito melhor pelo silêncio angustiante. A trama deveria nos manter altamente interessados o tempo todo, mas lá pela metade do filme já conseguimos imaginar o final – embora esperemos que não seja tão óbvio quanto estamos pensando.

O elenco segura um pouco o filme, com participações muito boas de Bem Kingsley, Max Von Sidow e Mark Ruffalo, e pontas excelentes de Elias Koteas e Jackie Earle Haley. Mas é justamente o ator principal, Leonadro DiCaprio, que “conta” a história antes do final com sua atuação exagerada do começo ao fim – no final ela seria até justificável, mas matou o suspense já começando assim. O filme tem, sim, algumas qualidades, e vale o ingresso. Mas esperávamos mais de Scorcese.