10 novembro, 2007

Noel - Poeta da Vila




Nos últimos anos vimos o gênero das cinebiografias ser revitalizado com uma onda de ótimas produções. De Cazuza a Truman Capote, passando por Ray Charles e Johnny Cash, esses filmes nos apresentam facetas não muito conhecidas de pessoas famosas, o que por si só já é um grande trunfo. Quando temos como tema um músico, há ainda suas melhores composições na trilha. Em Noel - Poeta da Vila, há ainda a curiosidade de saber mais sobre um personagem muito presente, já que suas músicas continuam a ser eternamente regravadas e ouvidas. Mas algo ficou faltando na fita.

Ricardo van Steen, o estreante diretor, baseou-se na melhor biografia escrita sobre o boêmio para o seu filme, um projeto pessoal antigo. Talvez tenha ficado tão atento às facetas do personagem que deu menor atenção ao ambiente e às várias possibilidades que sua leitura sobre um dos maiores marcos do samba nacional poderia alcançar. A Vila Isabel, berço do poeta e palco das suas maiores obras, é pouco ou nada aproveitada, como também algumas passagens interessantes da vida de Noel Rosa. A fotografia calibrada para simular uma fotografia antiga é desnecessária e afasta o espectador da contemporaneidade das suas canções.

Não sei as limitações de orçamento que a produção enfrentou, mas faltou um pouco mais de cenas externas, mostrando a Vila no início do século passado, e também faltou tempo. Os 99 minutos do filme são poucos, muito poucos, para explorar um personagem tão interessante. Como no caso de Olga, mas por outros motivos, podemos ver o potencial de um excelente filme que acaba por não acontecer. Não apenas o potencial da história, mas o potencial do diretor e especialmente do ótimo elenco. O também novato Rafael Raposo como o poeta não chega a impressionar - a não ser pela sua semelhança com o seu personagem da vida real - mas percebe-se que tem talento.

Pode parecer injusto não dar uma nota alta para uma produção que tem, sim, várias qualidades. Mas talvez essa seja a maneira de apurar o cinema brasileiro, que possui tudo o que é necessário para produzir ótimos filmes, menos o incentivo. Nesse caso, como já disse, tudo está lá. O que falta é provavelmente o apoio - financeiro inclusive - que faria com que saíssemos extasiados da poltrona, cantando os sambas que todos sabemos de cor. Ainda assim, é um filme que deve ser visto, especialmente porque a melhor maneira de melhorar o nosso cinema é dando crédito às produções que tem potencial.

04 novembro, 2007

O Passado (El Pasado)





Hector Babenco é um diretor que costuma dividir os poucos brasileiros que o conhecem. À parte o fato dele ser argentino, suas produções brasileiras geram opiniões quase sempre opostas. Ele filma pouco, foram apenas 11 peças desde 73, mas sempre o faz intensamente. Sua penúltima obra, o brasileiro Carandiru, foi filmado no mesmo prédio em que se passam as histórias, às pressas, antes que o complexo carcerário fosse demolido. Para que os atores pudessem entrar melhor em seus personagens, Babenco fez com que todos passassem uma noite nas celas, nas mesmas condições dos detentos. Sua nova película traz também algo em comum entre a realidade e a ficção, mas desta vez é algo um tanto mais prosaico. Seu ator principal, Gael Garcia Bernal, envolveu-se com quase todas as mulheres da produção, incluindo atrizes.

O filme é a história de Rímini, desde a separação da sua primeira esposa Sofia até sua reunião com ela. O estilo mais intimista que Babenco imprimiu à obra transparece em diálogos curtos e atuações fortes, em que Bernal é um indiscutível destaque, mostrando sua força como um dos melhores atores da sua geração. Mas o elenco feminino que faz o contraponto ao galanteador mexicano não deve em nada. É preciso apontar as qualidades mostradas por Analía Couceyro, a Sofia, que demonstra uma grande capacidade de produzir um sentimento com sutis mudanças de expressão.

Babenco filma O Passado com a experiência de quem já teve sob sua tutela ótimos atores e excelentes roteiros, e sabe como usar a cena a seu favor, seja na intimidade revelada, seja no silencio que quase tudo conta. Como das outras vezes, é bastante possível que as opiniões dividam-se nos extremos, já que é difícil passar as quase duas horas de projeção inócuo ao roteiro forte. Possivelmente a Argentina tentará levar o filme ao Oscar, entre outros grandes prêmios do cinema, e nesse fator o nome Hector Babenco pode dar alguns pontos a mais. Uma curiosidade: Paulo Autran, um dos maiores atores brasileiros, fez neste filme sua última participação nos cinemas, em uma ponta como um professor francês.

03 novembro, 2007

Tá Dando Onda (Surf's Up)




Há uma estranha onda de coincidências nas animações por computador. O segundo filme do gênero feito por um grande estúdio, Formiguinhaz, foi logo seguido pelo Vida de Inseto da pioneira Pixar, também trazendo formigas como personagens. O sensacional Shrek antecipou o também excelente Monstros S.A., ambos protagonizados por criaturas estranhas. Tivemos ainda Procurando Nemo antes de Espanta Tubarões, e Madagascar por Selvagem, com animais de zoológico. Agora, pouco depois da pequena obra prima que foi Happy Feet, temos mais uma animação com pinguins. Espionagem industrial? Não importa, até porque, nesse caso, ganham todos: produtores, animadores e, especialmente nós, o público. Como cada um deles tenta ser melhor que o outro, o nível das novas produções em 3D espanta a cada lançamento, e o roteiro quase sempre acompanha.

Tá Dando Onda traz um novo recurso interessante no segmento, a metalinguagem. O que vemos é uma mistura de filme com produção de um suposto documentário sobre a 10ª edição do Campeonato de Surf Big Z da Ilha Pingu. Imagens simulando uma captação em 16 milímetros, perdas de foco e trepidações na câmera, personagens interagindo com a equipe de produção, está tudo lá, vestindo a divertida história do garoto que sonhava ser um campeão no surf. Qualquer um que já assistiu a algum dos vários filmes de surf percebe facilmente as marcas do gênero, incluindo a câmera na ponta da prancha e as gotas d'água na lente.

Não há uma explicação sobre o motivo de os personagens principais serem pinguins, além da habilidade natural dessas aves na água, mas isso também não é importante. A história, como sempre, agrada grandes e pequenos. Tem lá os seus defeitos e clichês, mas é bastante atraente e bem trabalhada, e conta com o apoio de vários personagens interessantes. A presença de "personagens reais" como Kelly Slater e Rob Machado, faz parte das referências que divertem os cinéfilos e curiosos de plantão. Um filme simpático para uma tarde agradável.

02 novembro, 2007

Um Verão Para Toda Vida (December Boys)




Vez por outra, no cinema, somos apresentados a uma produção feita especialmente para que lembremos com nostalgia de uma época mágica em que tudo parecia possível. Não raro, tais filmes apresentam algum acontecimento marcante, que é o ponto com o qual compararemos o resto de nossas vidas. Quase sempre narrados pela versão adulta do personagem principal, são frequentemente belos exemplos de bom cinema, ancorados em roteiros poderosos. Um Verão Para Toda Vida preenche todos os requisitos, e merece seu posto entre os bons do gênero.

Um grupo de órfãos são escolhidos para passar as férias de verão - sempre elas - no litoral da Austrália, em uma pequena vila. Esse mote simples é a base para uma maneira profunda e delicada de mostrar, na visão de dois dos órfãos, a passagem para a vida adulta por um, e o reconhecimento da família por outro. O diretor Rod Hardy, que até então quase só havia dirigido produções para a TV, mostra uma mão muito boa para o drama, aproveitando com muita propriedade o belo cenário, o elenco de quase desconhecidos e o roteiro. O filme tem o ritmo e o nível de emoção certo, daqueles que poucos dramas conseguem alcançar.

Entre o elenco de quase desconhecidos há um rosto muito familiar: Daniel Radcliff, o Harry Potter. O segundo jovem mais rico da Inglaterra - perde apenas para o príncipe Harry - sai-se muito bem sem o uniforme de Hogwarts, mostrando que tem bastante talento para ser descoberto. É verdade que seu melhor papel ainda é o do bruxinho no terceiro filme da série, sob a batuta do mexicano Alfonso Cuarón, mas conseguir estar nas telas sem que lembremos de que ele é o eterno Harry Potter é um grande feito. Basta lembrar que outros atores jamais conseguiram sair de seus personagens mais famosos, como Mark Hammil - o Luke Skywalker - e William Shatner - o Capitão Kirk de Jornada nas Estrelas.

Um Verão Para Toda Vida é daquelas produções em que a simplicidade pode fazer com que não chegue a ser aclamado. Mas películas como essa não precisam disso. Alcançando um patamar que o coloca em pé de igualdade com clássicos como Conta Comigo e Lições Para Toda Vida - uma coincidência apenas de "tradução" do título - é um filme que será revisto várias vezes, em várias épocas, e nunca perderá seu charme.

28 outubro, 2007

Renaissance (Renaissance)




É muito comum que novos estilos, especialmente visuais, quando habilmente aplicados, gerem réplicas no mundo do cinema. À primeira vista, Renaissance pode parecer uma réplica em animação do excepcional Sin City de Robert Rodriguez e Frank Miller. Mas não é. Claro que não ajudam as críticas mundo afora referindo-se ao filme como uma fantástica mistura de quadrinhos com cinema - o que ele também não é. O filme nasceu ainda no século passado, em 1999, quando Rodriguez ainda nem pensava em convencer Miller a filmar sua história em quadrinhos. Naquela época, o diretor francês Christian Volckman já trabalhava na história e no conceito visual da sua produção.

Visualmente, apesar de lembrar muito Sin City, há também duas diferenças básicas: primeiro, este é uma animação, feita com uma técnica excelente de captura de movimentos; segundo, a fotografia utiliza muito mais o preto e branco puro, quase sem escalas de cinza. Esta característica, por si só, já restringe muito o público - e de fato atrai mais os leitores de quadrinhos. A história, nem tanto. Não há nada espetacular na ficção científica, e há muitos clichês.

Assim como Capitão Sky e o Reino do Amanhã, há aqui muito mais preocupação com a fotografia que com o roteiro. Volckman nos apresentou uma possibilidade nova na forma de contar uma história, mas não a utilizou em um bom texto. Muitas vezes previsível e com alguns problemas de ritmo, nem mesmo chega a utilizar o visual a seu favor. O filme não perde sua validade como novidade, mas também não avança além do circuito cult. Pelo menos ele nos mostra que as possibilidades de inovação estilística ainda existem.

20 outubro, 2007

Stardust (Stardust)




O cinema felizmente descobriu a fonte dos quadrinhos alternativos. Aproveitando ou não a onda de adaptações da nona para a sétima arte, os títulos menos conhecidos, aqueles que nem sempre vão parar nas bancas, começam a aparecer nos cinemas. Já tivemos de tudo, desde a melhor proposição já feita para o misterioso Jack o Estripador - sim, a graphic novel "Do Inferno" é considerada a mais provável história do famoso assassino, e já esteve nas telonas - até a melhor transcrição entre as duas linguagens, o excepcional Sin City. Stardust não chega a alfinetar um posto de "melhor", mas merece as suas estrelas.

A história não é muito conhecida aqui no Brasil, mas os fãs do gênero sabem que a sua grife não engana. Neil Gaiman, o autor, faz parte da atual tríade sagrada dos escritores de quadrinhos, junto com Frank Miller, de Sin City e 300, e Alan Moore, de V de Vingança - um caso raro dos que não foram muito bem adaptados, tanto que Moore tirou seu nome dos créditos - e "Do Inferno". Ou seja, a história é certamente muito boa. Para referência, Gaiman é o autor da melhor série longa dos quadrinhos, Sandman.

E o diretor Mattew Vaughn soube aproveitá-la. Iniciante, com apenas outro filme desconhecido no currículo, já podemos ver que tem potencial. A narrativa, com todas as adaptações que normalmente são necessárias à transcrição, utiliza muito bem o tema central dos quadrinhos, e tudo corre na medida. Temos o humor contornando toda a trama, a aventura na dose certa, e a beleza visual muito bem fotografada. Sem falar no ótimo elenco. Tão bom que pode colocar grandes nomes apenas como coadjuvantes, como Peter O'Toole e Rupert Everett - aliás, o time dos príncipes fantasmas é particularmente hilário. O protagonista Charlie Cox foi bem escolhido entre nomes não muito famosos, e conseguiu mostrar um bom serviço ao lado de "gente grande" como Robert DeNiro e Michelle Pfeiffer. Claire Danes mostra também muita desenvoltura no papel da estrela cadente Yvaine.

Muitas vezes um bom filme perde-se porque prolongou demais a história ou fez cortes excessivos. Stardust não padece de nenhum desses problemas. Com suas pouco mais de duas horas, tem o tempo exato para desenvolver a trama, não deixa nós desatados e diverte bastante. Um filme que tem potencial para agradar uma faixa de público maior do que o quadrinho que o inspirou conseguiu - o que pode fazer com que a peça original volte às prateleiras, o que não seria nada ruim. Uma produção que transita bem dos festivais que freqüentou para o circuito comercial, o que por si só já é um bom atestado de qualidade. Para ver sem medo de errar.

13 outubro, 2007

Hairspray (Hairspray)





O gênero dos musicais ficou um bom tempo quase abandonado. Apenas algumas poucas produções se aventuravam, sem muita projeção. Felizmente, resolveram reaproveitar as imensas qualidades da categoria, acrescentando ainda uma boa e renovada utilização das suas características. Podemos citar entre os bons musicais recentes os excelentes Chicago, Moulin Rouge e Dreamgirls, para não estender muito a lista. A mais recente produção consegue também se valer do que há de melhor, acrescentando ainda um ingrediente que os outros utilizaram menos, a comédia. Hairspray, como vários outros, é baseado em um show de sucesso da Broadway, que já tinha sido filmado antes, em 1988. E, como vários outros, faz lá as suas licenças poéticas, quase todas com muita propriedade.

O diretor Adam Shankman começou sua carreira recentemente, dirigindo o bobinho The Wedding Planner, o sensível Um Amor para Relembrar, e os bastante tolos A Casa Caiu e Operação Babá. Desta vez, ele finalmente conseguiu passar uma mensagem importante para qualquer diretor: ele tem estilo. Sua versão é divertida, enérgica, colorida e, claro bastante musical. Algumas escolhas foram essenciais para reunir na medida todos esses pedaços: escolher um homem para interpretar a mãe da protagonista foi uma grande jogada, e escolher John Travolta para isso foi ainda melhor; a novata Nikki Blonksy é ótima, conseguindo atuar muito bem e cantar ainda melhor - novatas gordinhas estão em alta, vejam a excelente Jennifer Hudson de Dreamgirls; Michelle Pfeiffer como a "vilã" foi também uma grande jogada, até porque ela andava meio sumida. Todo o elenco está bem. Para costurar tudo isso, o tratamento dado ao roteiro, e especialmente ao contexto histórico, foi bastante adequado.

Musical com comédia e uma mensagem moralizante pode, sim, funcionar, e Hairspray é prova disso. Sem muito esforço, você vai rir bastante, apreciar as músicas e passar agradáveis minutos na poltrona, e ainda vai querer passar na loja de CDs mais próxima para comprar a trilha sonora. Um filme bom para assistir com a família, ou com a namorada, ou mesmo sozinho. Mas, certamente, um filme para assistir.