08 fevereiro, 2009

O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pyjamas)




A Segunda Guerra voltou às telonas em três grandes produções. Em comum, além do tema central, o ponto de vista. Um Homem Bom, O Menino do Pijama Listrado e Operação Valkíria contam a história pelo lado dos alemães. Aqui, temos, além disso, a visão de uma criança, que pouco entende o que acontece. Tanto que não percebe que seu novo amigo é na verdade um prisioneiro judeu condenado à morrer nas fornalhas nazistas.

Mark Herman, antes deste, só havia dirigido comédias de pouca importância. Comandar O Menino do Pijama Listrado - sendo também responsável pelo roteiro - é um grande passo na sua carreira. E muito bem dado. Ele filma um tema sensível e difícil com muita habilidade, segurando sempre para não acabar com um óbvio filme antinazismo nas mãos - o que faria dele apenas mais um entre tantos. Apesar de, claro, haver a crítica à lavagem cerebral da SS, o ponto aqui é a turbulência na vida de um pequeno garoto de 8 anos.

Asa Butterfield, o garoto, atua bem, em um papel nada fácil, mas não é dos melhores atores mirins dos últimos tempos. Ele é acompanhado por David Thewlis e Vera Farmiga como seus pais, em bons papéis coadjuvantes, especialmente Farmiga. Jack Scanlon, o amigo judeu, é ligeiramente melhor, mas aparece menos. Herman não consegue, ainda, tirar dos seus atores tudo que eles poderiam dar.

Apesar de já conhecermos a história, e sabermos tudo que o jovem Bruno irá descobrir, somos bem conduzidos na passagem das brincadeiras para o tédio e depois para a incompreensão do menino - cuja inocência impede até mesmo que o ideário nazista entre em sua cabeça. Um filme bonito na maior parte do tempo, com um final ríspido e forte. Bem feito o suficiente para ser ótimo e, ainda assim, nos manter na lembrança o que é possivelmente uma das piores feridas da humanidade.

06 fevereiro, 2009

Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road)




Sam Mendes parece determinado a criticar a sociedade norte americana. Seu primeiro trabalho no cinema, o excelente Beleza Americana, apertava em cheio o botão do "american way of life", com cores vibrantes. Soldado Anônimo, com muita textura e granulação, atirava contra o exército atual e a Guerra do Iraque. Dos seus quatro filmes, só Estrada Para a Perdição não tem esse fundo - mas é também um ótimo trabalho. Agora, ele vai para a origem da ilusão, os anos 50, pós Segunda Guerra, nos subúrbios das grandes cidades.

Foi Apenas um Sonho não perde tempo explicando. Já começa com a crise do casal que, por motivos diversos, se vê arrastado na mesmice e no vazio. Desta vez, Mendes não dá o colorido de Beleza Americana. Ao contrário, aproveita o ambiente de época e deixa tudo com monótonos tons pastéis - mostrando que sabe fotografar bem. E várias cenas se prestam a mostrar a pasteurização do Sonho Americano.

E, como sempre, ele teve um bom elenco nas mãos. Kate Winslet e Leonardo DiCaprio estão juntos novamente como casal principal, mas desta vez em um filme que vale o tempo na poltrona. Kate é uma atriz excelente, e ainda assim parece que melhora um pouco a cada papel. Sua atuação apenas correta aqui nos faz ansiar por vê-la em O Leitor - pelo qual ela foi novamente indicada ao Oscar. DiCaprio, bem dirigido, é também ótimo. Felizmente, ele tem escolhido bem seus papéis. Vale destacar Michael Shannon em uma excelente atuação como justamente um homem perturbado que não aceita quem se encaixa nos padrões.

Não é melhor que Beleza Americana, e a comparação é inevitável. Com argumentos muito parecidos, mas tratamentos muito diferentes Foi Apenas um Sonho é um tapa bem dado, e feito sob medida para os jovens sonhadores - norte americanos ou não. É o tipo de filme que temos que rever de vez em quando.

31 janeiro, 2009

Gomorra (Gomorra)



Apresentado com grande repercussão em todos os festivais em que passou, Gomorra foi chamado, aqui no Brasil, de “Cidade de Deus italiano”. A estética do filme, de fato, lembra um pouco, em alguns momentos. Mas as semelhanças terminam por aí. Baseado em um livro bombástico do jornalista Roberto Saviano, que pesquisou a fundo – tão fundo que trabalhou, de fato, para as máfias sicilianas, e por isso mesmo não pode pisar mais na Itália e vive agora exilado e protegido – a brincadeira que forma o nome do filme já é uma bela introdução do que vamos encontrar. Está ali um retrato dos tentáculos de uma das maiores organizações criminosas do mundo.

Mas não espere ver chefões engravatados desfilando em carrões, nem qualquer tipo de glamour. Estamos aqui no “proletariado” da máfia, no trabalho sujo feito sem luvas. E, por isso mesmo, muito mais real. Não há rostos famosos, e nem mesmo o diretor, Matteo Garrone, é muito conhecido, nem pelos mais ferrenhos cinéfilos. Gomorra é um pouco difícil de seguir. São cinco histórias, levemente intercruzadas, que mostram uma pequena pincelada das várias atividades em que a máfia se insere. Com uma fotografia realista, cheia de sombras que as produções comerciais se esforçam em evitar, e com personagens que não se inserem na dualidade maniqueísta mocinho/bandido – todos ali estão de alguma forma ligados ao crime, mas nem por isso são todos maus – não é para todos os gostos.

E, pelo jeito, não é para o gosto de Hollywood, que ignorou a produção que amealhou prêmios por onde passou, inclusive o Grande Prêmio de Cannes em 2008. Aqui, não vai sair do circuito alternativo, e nem deve. Bom pela brutalidade com que retrata uma denúncia minuciosa, não se adéqua ao espírito de entretenimento das salas comerciais.

25 janeiro, 2009

Austrália (Australia)




Em 2003, o diretor australiano Baz Luhrmann iniciou um projeto de levar às telas a história de Alexandre, o Grande. Diz-se que já estava escalado o elenco principal, formado por Leonardo DiCaprio e Nicole Kidman, nos papéis de Alexandre e Olympia, sua mãe. A produção foi interrompida porque outro grande diretor, Oliver Stone, estava também filmando o personagem. Muitos se perguntaram - e ainda se perguntam - como seria a visão de Luhrmann para uma produção épica e histórica como seria aquela. Dono de um estilo que usa e abusa de cores fortes, e que adora cenários fantasiosos, num primeiro olhar não seria um filme que nos faria pensar nele.

Mas a vontade de conduzir um épico ficou, e agora Luhrmann nos traz Austrália, um grandioso conto em meio a história da colonização australiana. Com bem mais cenas externas e bem menos cores do que estamos acostumados a ver nos seus filmes - o cenário árido do país é muito bem utilizado, inclusive com um contraste levemente incrementado que esquenta ainda mais a fotografia - ele consegue se sair bem nesta primeira experimentação, apesar de alguns pequenos deslizes no roteiro, que quase se perde em alguns pontos.

Nicole Kidman foi a primeira a aceitar estrelar a fita - segundo rumores, mesmo antes de ler o roteiro, só por ter o nome de Luhrmann na direção. E, segundo dizem, ela convenceu Hugh Jackman a aceitar o convite que já tinha recusado. Não podemos dizer que é o melhor papel para nenhum dos dois, apesar de Jackman estar à vontade no papel de machão. Nicole exagera um pouco nos trejeitos aristocráticos no começo, mas acerta mais depois. Em compensação, eles são acompanhados pelo ótimo garoto Brandon Walters, num papel não muito fácil para uma criança em sua primeira experiência na telona, e por um bom elenco de apoio.

Em alguns momentos, temos a impressão de que o filme já vai acabar - que são os pequenos deslizes no roteiro. De forma geral, poderíamos reduzir os 165 minutos da produção às 2 horas habituais sem grandes perdas. Mas, vá lá, estamos falando de Baz Luhrmann, o diretor que com apenas três outros filmes no currículo conseguiu um lugar de honra na lista de muitos cinéfilos - inclusive este. Pode ser que não fosse o momento mais adequado para um filme desse calibre, mas ainda assim é uma produção excelente, e que deve ser vista.

24 janeiro, 2009

Um Homem Bom (Good)




Vicente Amorim não é um dos mais conhecidos diretores brasileiros de cinema. Na verdade, é quase desconhecido. O único filme que alguns talvez se lembrem de sua seara é O Caminho das Nuvens, de 2003, que não teve muita projeção. Ainda assim, Amorim foi aventurar-se lá fora, e foi selecionado para comandar a produção Um Homem Bom, uma história que acontece no começo no nazismo na Alemanha.

A trama é muito interessante, e bastante inteligente em mostrar um drama pessoal envolvido pelos fatos que todos já conhecemos bem. O roteiro transita habilmente nos acontecimentos da vida do professor de literatura que se vê praticamente tragado pelo Partido Nacional Socialista, e tem que lidar com o melhor amigo judeu. Mas o tempo todo parece que falta algo.

Não é no elenco. Viggo Mortensen, conhecido por muitos pelo papel de Aragorn em Senhos dos Anéis, mostra que pode fazer outros bons papéis, como em Marcas da Violência e Senhores do Crime. Seu professor Halder é tão confuso e evasivo quanto o papel requer. Jason Isaacs, o amigo judeu, também é um rosto conhecido, mas talvez um pouco menos óbvio - ele faz Lucius Malfoy na franquia Harry Potter. É um ator que merecia mais atenção. A jovem Jodie Whittaker praticamente caiu de para-quedas no filme, substituindo de última hora a excelente Romola Garai, que desistiu pouco antes das filmagens começarem.

Com um roteiro interessante e um bom elenco, só faltou mesmo um diretor um pouco melhor. Não que Amorim não seja bom, mas há tanto que poderia ser feito com a combinação que ele teve nas mãos, tão mais que ele poderia extrair, que é difícil não admitir que tudo que falta ao filme vem dele. Um filme bom poderia ser ótimo. Mas ainda assim, é uma produção que vale a pena ser vista.

20 janeiro, 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button)




A maioria dos grandes escritores deixou, além dos livros e citações, ótimos contos, que vez por outra são lembrados ou encontrados. F. Scott Fitzgerald, um dos principais autores de língua inglesa, tem vários contos excelentes, e O Curioso Caso de Benjamin Button é um deles. Uma fábula moderna sobre o processo e o caminho da vida, na história de um homem que nasce velho e vai ficando mais jovem com o tempo. É um mote extremamente valioso para qualquer história, e nas mãos certas torna-se uma primorosa peça de arte. Por enquanto estamos falando apenas do texto.

Filmar uma história grandiosa como essa exige cuidado. Um projeto antigo da produtora, que já teve nomes como Steven Spielberg, Ron Howard e Spike Jonze sugeridos para a direção, e John Travolta e Tom Cruise no papel principal. Acabou nas mães de David Fincher, responsável por Seven, Clube da Luta e, recentemente, Zodíaco. Fincher teve um grande parceiro na produção, o roteirista Eric Roth, que assinou algumas obras memoráveis como Forrest Gump, Munique e O Bom Pastor. Um bom começo. Fincher e Roth exploraram a trama de forma muito comovente, respeitando os aspectos históricos do tempo em que o filme transcorre, e conduzindo tudo com um cuidado incomum em Hollywood.

Para o papel principal, um nome que já trabalhou com Fincher duas vezes, mas que muitos não considerariam como o mais apropriado para o papel. Brad Pitt esteve em Seven e Clube da Luta, e é mais lembrado como galã que como ator. Mas é um engano não lhe dar atenção. Auxiliado pelas excelentes maquiagem e efeitos especiais, Pitt dá vida ao papel com muita serenidade e com a postura de um ator experiente. Acompanhado por Cate Blanchett, que está sempre bem, e por um muito bem selecionado elenco de apoio, todos os papéis parecem certos para os seus atores.

Fincher teve a chance de contar uma ótima história, e não a desperdiçou. Ele conseguiu traduzir, de forma leve e acessível, um tema que poderia resultar em um filme bastante complexo ou pesado – e com isso afastaria boa parte do público. Mereceu cada uma das 13 indicações ao Oscar. Altamente recomendado.

18 janeiro, 2009

Bolt - Supercão (Bolt)




Apesar da Disney ter comprado a Pixar, ela ainda produzirá seus próprios filmes de animação fora do estúdio de Nemo e Wall-E. Ao que tudo indica, a Pixar ficará mais focada com as animações mais artísticas e elaboradas, e a Disney lançará as produções comerciais. Não que, em um caso como no outro, signifique que haja menos rigor na produção. Nem que os esúdios não colaborem entre si. Bolt, por exemplo, teve produção executiva de John Lasseter, atual presidente da Pixar e diretor de Toy Story e Carros.

Bolt tem, inclusive, um roteiro interessante, com aquela pitada de níveis além dos superficiais para agradar alguns dos mais velhos. E, claro, muita ação e cenas engraçadas para o público principal, as crianças. O esmero técnico parece ser bem puxado da Pixar, inclusive, talvez por influência do próprio Lasseter, talvez porque, afinal, é a Disney. Os personagens são bem trabalhados - o hamster Rhino é impagável - e a história flui bem.

Feito na medida certa para um filme de férias, é uma animação que começa a mostrar que a tecnologia tende a dividir os filmes em mais adultos e mais infantis - este cabendo no segundo critério. Antes demorava-se cerca de quatro anos para terminar uma boa animação 3D, tempo bastante reduzido hoje. Mas mesmo assim alguns adultos podem gostar.