31 outubro, 2010

Juntos Pelo Acaso (Life As We Know It)




Às vezes uma boa comédia romântica começa pelo título. Usar o nome dos personagens como em Harry & Sally é uma ideia batida, mas funcional. Opções simplistas como Notting Hill são simpáticas, e as altamente descritivas como Quatro Casamentos e Um Funeral fazem a produção interessante já no poster. Títulos cool como Love, Acutally e He’s Just Not That Into You são também boas opções. Mas há que se evitar um título que tenda à pretensão, como este Life As We Know It - literalmente, A Vida Como A Conhecemos. A tradução brasileira Juntos Pelo Acaso não ajuda.

Pois essa discussão é o que pode haver de mais rico sobre este filme. Nada da pretensão do título se reflete na história, que é recheada daqueles clichês que sempre nos fazem rir mas vazia de qualquer outra coisa. Sem grandes atuações e, pior, sem nem mesmo uma cena memorável, não é um bom exemplo de um gênero já bastante fadado a preconceitos. De bom na fita, só mesmo as ótimas expressões do bebê que é o mote da história.

12 setembro, 2010

Amor à Distância (Going the Distance)




Comédias românticas não precisam de muito para agradar. O mote principal é basicamente sempre o mesmo - rapaz conhece garota, se apaixonam, há uma complicação, se separam ou não podem ficar juntos, superam a complicação ou separam-se de vez. Mas, dentro dessa receita, é possível acrescentar os mais variados temperos, sendo mesmo possível criar algumas obras primas. Sim, é difícil, e a maioria fica no médio - o que não é necessariamente ruim.

Amor à Distância revela a complicação logo no título. E pouco mais se acrescenta ao longo do filme. Num caso como esse, é preciso ter um bom punhado de cenas engraçadas no meio. A dupla formada pela diretora Nanette Bursteis e pelo roteirista Geoff LaTulippe sai-se bem nesse quesito. Há diversas partes hilárias, daquelas que só se consegue com um timing muito afinado.

A dupla principal é formada pela pantera Drew Barrymore e pelo Mac Justin Long - vai levar algum tempo até conseguirmos superar sua participação na ótima série de comerciais da Apple. Não acontece uma química especialmente boa entre os dois - um dos temperos que fazem uma obra prima do gênero - mas também não há falta dela. Mas sempre que Charlie Day aparece na tela, rouba a cena. O parceiro cômico foi muito bem utilizado e mutias das risadas acontecem quando ele aparece.

Numa época de poucos super lançamentos, e se você, como eu, não está em um lugar onde A Ressaca - que parece ser muito bom - estreou, é uma opção. Se Amor à Distância não chega a ser um excelente prato principal, ao menos não decepciona como sobremesa. E, como afirmei no primeiro parágrafo, ficar na média das comédias românticas é um bom resultado.

09 setembro, 2010

Nosso Lar




Anunciado como a maior produção cinematográfica brasileira até hoje, com números que são de fato espantosos no nosso mercado - e conquistando outros nas bilheterias - Nosso Lar pega carona na recente onda espírita no cinema brasileiro. Infelizmente, nem os números investidos, nem os obtidos, são sinais de qualidade - há vários exemplos disso, dos quais Avatar é certamente o mais retumbante. O filme é quase uma continuação da cinebiografia de Chico Xavier - foi baseado no seu livro psicografado mais famoso - mas consegue, mesmo com uma produção muito mais elaborada, ser ainda mais fraco que aquele.

A ousadia dos cineastas brasileiros em criar o visual do mundo espiritual descrito pelo espírito André Luiz a Chico Xavier está de parabéns. A forma como o fizeram, nem tanto. Chamar colaboradores de fora - como a empresa responsável pelos efeitos visuais Intelligent Creatures, o compositor Philip Glass e o fotógrafo Uri Steiger - não ajudaram a tornar o Nosso Lar factível como provavelmente a descrição do espírito tentou colocar. A cidade se parece com uma mistura de Brasília com a ideal Epcot City de Walt Disney. Só que feita de maquetes gigantes habitada por personagens em um chromakey ruim.

O uso do elenco é um pecado mortal por si só. Não me lembro de outra ocasião em que se conseguiu juntar tantos bons atores num mesmo filme brasileiro. E certamente não se encontrará outro em que foram tão mal utilizados. As atuações são muito boas quando não há diálogo. As falas, todas, sem exceção, são falsas e forçadas, e percebe-se que os atores têm dificuldade em fazê-las críveis. A falta de emoção dá a impressão de ser um grupo de amadores atuando - e está muito longe disso. Eles sofrem, mas o público sofre mais por ter que passar por tudo isso em meio a um filme arrastado, que carece de ritmo e erra em elementos básicos.

Wagner de Assis tem no currículo de direção apenas o médio e não muito conhecido A Cartomante, além das manchas graves de ter escrito quatro filmes da Xuxa. Ele praticamente não comanda o filme, que caminha nos próprios passos tortos. Este certamente será seu maior sucesso - já está perto de se tornar o maior sucesso do cinema brasileiro. Como toda história com temática muito fortemente ligada a religião, é um filme para espíritas, simpatizantes e para aqueles cujas convicções são facilmente conquistáveis. Esses acharão o filme sensacional, reconhecerão as descrições do livro e vibrarão a cada nova imagem mostrada. O público mais crítico provavelmente evitará apontar os diversos defeitos em troca de não iniciar uma discussão que não se conterá nos aspectos cinematográficos. E assim acabaremos idolatrando a mediocridade de uma produção que tinha potencial, mas não o alcançou.

04 setembro, 2010

Parada Crítica no PodCast do Na Casa do Mamãe

E eis que após mais de três anos de blog, duas coisas incríveis aconteceram - infelizmente nenhuma delas relacionada a cinema.

A segunda foi a citação do Parada Crítica no PodCast do Na Casa do Mamãe, capitaneado pelos amigos cuiabanos Leandro Magalhães e Luciano Marino. Você pode conferir aqui, lá por volta dos 6m30s:

PodCast do Mamâe 002 by Leandro Magalhães

E a primeira, citada pelo Luciano no próprio PodCast, é a mudança do layout do Parada Crítica.

Bem, obrigado Leandro e Luciano pela citação! E aproveito para fazer o mea culpa do layout: quando comecei o Parada Crítica, convidei meus amigos e colegas designers - que não são poucos - a se disporem a criar um template para o blog. Como podem imaginar, a resposta foi zero. Portanto, apesar de diferente, ainda uso um template pronto do Blogspot, e ainda aguardo por uma alma caridosa que monte um personalizado por mim, que nada entendo de programação.

A propósito ainda do PodCast, respondendo ao Leandro, vocês não verão uma crítica de Os Mercenários aqui. Este crítico se reserva o direito de não entrar em furadas que já são sabidas de antemão.

08 agosto, 2010

A Origem (Inception)




A história do cinema está repleta de grandes feitos e de retumbantes fracassos. Às vezes, um diretor tem um início de carreira estupendo, mas depois custa a voltar a acertar. Mas é ainda mais raro um crescimento tão avassalador quanto o de Christopher Nolan. Seu primeiro longa, Memento - que recebeu aqui a péssima tradução de Amnésia - é excelente. Brinca com a noção de tempo como poucos se arriscaram a fazer, e menos ainda acertaram. Mas poucos viram. Seu filme seguinte, Insônia, tem as suas qualidades, mas não chega a espantar. Então ele torna-se o responsável por reiniciar o herói Batman no cinema, e o faz com maestria em Batman Begins. Pouco depois lança O Grande Truque, em que mostra que domina a técnica cinematográfica como poucos. Volta a espantar o mundo com O Cavaleiro das Trevas, sua segunda aventura com o Batman que, apesar de ser um filme de super-herói, entra facilmente nas listas dos melhores filmes de todos os tempos. É um triunfo em tanto, daqueles que os espectadores e críticos pensam não ser possível superar, e que marcaria a carreira de Nolan. Pois estávamos todos errados. Já não me arrisco a dizer que ele atingiu seu ápice, mas estou seguro em afirmar que, em meros 6 longas, ele marca seu nome no panteão dos grandes cineastas com A Origem.

É perigoso tentar uma descrição em poucas palavras de A Origem. Mas é irresistível não dizer que é mais que um filme, é um acontecimento cinematográfico. Para o público geral, é uma produção excelente, daquelas que te deixa quase sem respirar o tempo todo, e que fazem suas quase duas horas e meia passar como se parecessem minutos. Para curiosos, estudantes de cinema e críticos, é uma realização incomparável. Dos menores detalhes de roteiro às minúcias dos vários níveis de produção, é impecável. É tão divertido quanto profundo, e tão bem amarrado quanto passível das mais variadas interpretações ao final. Em um filme em que literalmente tudo se mexe, é incrível que nada esteja fora do lugar.

O elenco poderia chamar atenção por si só. Grandes nomes como Leonardo DiCaprio, Michael Cane - parceiro recorrente de Nolan, Marion Cottilard e Ken Watanabe se juntam a novas promessas como Joseph Gordon-Lewitt, Ellen Page, Cillian Murphy e Tom Hardy. Tudo funciona muito bem, com interpretações excelentes, mas é também o único ponto que talvez ainda falte a Nolan dominar: retirar dos atores as performances inigualáveis. Talvez, porque, no tipo de filme que vem fazendo, há muitas outras qualidades que suprem essa ainda não totalmente completa técnica.

Ao contrário de muitos grandes filmes, que geram um efeito 8 ou 80 - ama-se ou odeia-se - , A Origem é capaz de arrancar elogios mesmo dos mais difíceis espectadores. Há que se ter muita coragem, sem falar em argumentos extremamente bem trabalhados, para ousar dizer que não é um bom filme. E, embora seja exagero falar em faculdades de psicologia no mundo todo dedicando uma cadeira à interpretação de A Origem, é certo falar que muito será discutido e escrito sobre como ele representa um marco na forma de fazer cinema, e que Nolan já pode ser considerado o cineasta da década. Imperdível, para assistir várias vezes sem cansar.

24 julho, 2010

O Bem Amado




O Bem Amado é uma das obras audiovisuais mais famosas do Brasil. Primeira novela em cores, exibida em um momendo político delicado mas fazendo suas críticas, e pouco depois transformada em série de TV - também uma das primeiras - é daquelas histórias que mesmo os que nunca assistiram conheçem um pouco. Há pouco tempo estreou nos palcos, e agora finalmente chega aos cinemas - com parte do elenco da peça.

O comando ficou com Guel Arraes, uma escolha praticamente perfeita. Depois de dirigir a adaptação para TV de O Auto da Compadecida, do filme original Lisbela e o Prisioneiro e o excelente Romance, sua forma de filmar casa muito bem com o ritmo esperado. E ritmo, aliás, é o que marca o filme. A agilidade cômica já conhecida de Arraes é aqui quase um personagem próprio.

O elenco desfila grandes nomes, começando por Marco Nanini no papel principal, repetindo o sucesso que deu ao personagem no teatro. Ele presta sua homenagem a Palo Gracindo - que interpretou Odorico na novela original e na série - fazendo bem diferente. O desfile de neologismos típico do personagem parece ter ficado ainda melhor nas mãos dele. Matheus Nachtergaele faz um Dirceu Borboleta um pouco mais contido que o da TV, assim como José Wilker faz um Zeca Diabo mais soturno. As Irmãs Cajazeras estão ótimas nas peles de Zezé Polessa, Drica Moraes e Andréa Beltrão. Melhor resumir dizendo que todos estão bem.

A crítica política é tão válida hoje quanto na década de 70, quando a novela estreou, e é incrível perceber no caricato Odorico os políticos que vemos todos os dias nos noticiários - e em breve bem mais no horário político. Mas, afastando-se do cinema de combate, O Bem Amado é acima de tudo um filme muito divertido, gostoso de ver, e que merece seu ingresso.

23 julho, 2010

Shrek Para Sempre (Shrek Forever After)




Quando o primeiro Shrek foi lançado, foi um golpe e tanto na batalha que acontecia então entre a Dreamworks Animation e a Pixar - e de lambuja criticava um pouco de tudo na Disney também. Tinha a graça e o sarcasmo, as referências, o ritmo. O segundo conseguiu manter um pouco disso, mas o terceiro foi uma queda abismal, e muitos acharam que o querido Ogro não mais seria visto. Mas a Dreamworks resolveu dar um final mais apropriado para sua cração mais famosa, e se esforçou na quarta e última parte da história.

Sensivelmente melhor que o terceiro - o que não é difícil - e também um pouco acima do segundo, esta parte consegue trazer de volta um pouco das qualidades que nos fizeram adorar o primeiro. Tem um roteiro bastante trabalhado, e uma modelagem sensacional. E é o segundo Shrek a ser feito em 3D, o primeiro nas telonas.

Mas tivemos recentemente outro capítulo final de uma famosa franquia de animação por computador. E, por mais que o pessoal da Dreamworks tenha se esforçado, não chegam a fazer cócegas na qualidade que Toy Story 3 apresentou. Exceto por um ponto: a Dreamworks soube usar o 3D melhor que a Pixar até agora. Ainda assim, para quem guarda boas lembranças do filme original, vale a pena desdedir-se do ogro verde em grande estilo.