05 maio, 2011

Thor (Thor)


Quando se pensa em filmes de heróis dos quadrinhos, há uma certa fórmula que nos vem à mente, e que inclusive tem se mostrado eficiente nas produções mais recentes. À exceção do trabalho soberbo feito por Christopher Nolan nos recentes filmes do Batman, em especial Cavaleiro das Trevas, todos os outros primeiros filmes devem mostrar a origem do herói para um público não necessariamente acostumado aos quadrinhos. Isso toma muito tempo da história para contar descobertas, transformações e epifanias, e normalmente só nos minutos finais há a batalha épica esperada.

Thor parte de um princípio levemente diferente: o personagem já é um herói, poderoso e ciente do seu poder, apesar de incompleto. Seu principal inimigo também já conhece seus poderes. E com isso a história parece começar de trás para frente. Ou, para ser mais preciso, lembra em diversos detalhes a peça Henrique V, de Shakespeare. Não por acaso, o diretor é Kenneth Branagh, conhecido por diversas adaptações do bardo para a telona.

Branagh reuniu um elenco estrelar. Anthony Hopkins no papel de Odin é uma escolha irrepreensível, assim como Stellan Skarsgård e Natalie Portman. Mas as boas surpresas estão no protagonista e antagonista, ambos vividos por atores não muito conhecidos. Chris Hemsworth tem o rosto, o porte e a voz de Thor, além de ser um ator competente. Mas a cena é roubada memso pot Tom Hiddleston como Loki. Sua atuação tem nuances sensacionais, transformando um papel já difícil em uma performance soberba.

Apesar de todas essas qualidades, parece que no final da sessão faltou algo. Pensando novamente nos filmes de heróis de quadrinho, a impressão é de que pouco foi aproveitado das cenas de ação esperadas. Branagh parece ter tentado colocar muita profundidade shakespereana, mas não se ligou para o que o gênero praticamente exige. Isso pode ser bom, e Cavaleiro das Trevas, novamente, é um exemplo primoroso disso. Mas Thor não alcança os mesmos níveis, e acaba sendo um bom filme, mas não dos melhores de heróis dos quadrinhos.

14 abril, 2011

Rio (Rio)


Uma animação do principal nome brasileiro no mundo do CG, ambientada no Rio de Janeiro é, por si só, um motivo mais que válido para comprar o ingresso. Felizmente, uma vez dentro da sala, as recompensas vão se somando. Rio traz de volta um pouco do ambiente criativo das primeiras animações por computador, quando o custo alto de cada pequeno trecho de filme era muito alto, e por isso o cuidado com o roteiro era extremo. Aliado às novas técnicas e capacidades tecnológicas, e apoiando-se na diversidade cromática brasileira, é um deleite para os olhos.

Carlos Saldanha, desde o começo, arrisca em sua BlueSky mais que outros estúdios, mesmo que a Pixar, quando o assunto é ação e, digamos, física aplicada à animação. Vimos isso nos três A Era do Gelo, e mesmo em Robôs. Com os pássaros de Rio, essa característica de Saldanha literalmente ganha asas. E mesmo assim a intensidade das cenas é sempre coerente com o roteiro.

Com todo respeito aos dubladores meus conterrâneos, se puder, prefira assistir a versão legendada. Não só as atuações vocais de Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Will.i.am, Jamie Foxx e Jemaine Clement, para citar só os principais, estão excelentes, como há alguns trechos de diálogo em que a confusão entre línguas é essencial - aliás, gostaria se saber como fizeram com os momentos em que Linda não entende quando falam com ela em português. Quem assistiu à versão dublada, por favor, coloque nos comentários.

Ah, sim, tem a tal polêmica do filme mostrar um Rio feito só de praias, favelas e carnaval - e feito por um brasileiro, ainda por cima. Bobagem. Pra começar, a intenção nunca foi retratar a realidade. Além disso, o Rio que aparece no filme é, de certo modo, fiel, apesar de segmentado. Mas não se importe com isso. Entre no cinema com a certeza de diversão e risadas garantidas.

03 abril, 2011

Sem Limites (Limitless)


Em 2006, um filme bastante interessante envolvendo um ilusionista estreou nos cinemas. Tinha uma fotografia muito bem feita, bons atores bem dirigidos, uma trama envolvente. O Ilusionista foi, infelizmente, foi quase eclipsado por Christopher Nolan e seu excelente O Grande Truque. Mas o diretor, então em seu segundo longa, conseguiu colocar uma pequena marca, daquelas suficientes para que prestemos atenção. Neil Burger dirigiu ainda outro longa, o desconhecido The Lucky Ones, antes de conseguir voltar ao grande circuito comercial com Sem Limites.

O que primeiro observamos no filme é que Burger realmente gosta de usar bem a fotografia. Aqui, ela se torna praticamente o estado de espírito do personagem principal em cena, saindo do cinzento para o colorido quando Eddie Morra, o protagonista, está sob o efeito da droga que o torna hiper inteligente.

Bradley Cooper, no papel principal, não chega a despontar, mas também não desaponta. Acompanhado da ligeiramente mais talentosa Abbie Cornish, e do notoriamente genial Robert De Niro, há uma boa equipe em frente às telas. E há ainda lugar para algumas surpresas como Andrew Howard em uma atuação bastate competente.

A história, que nos trailers parece se tratar de mais uma daquelas fábulas modernas com moral discutível, é bem aproveitada por Burger, inclusive fugindo desse estigma para quase o extremo oposto. O resultado final é um filme muito bom, embora não o bastante para entrar no circuito dos excelentes.

20 março, 2011

Sexo Sem Compromisso (No Strings Attached)




Ivan Reitman está na memória de todos que viveram nos anos 80. Você talvez não conheça o nome, mas certamente já viu alguns dos seus filmes. Pode não ter sido os tolos Almôndegas - sim, existe um filme com esse nome - e Recrutas da Pesada; talvez o OK Irmãos Gêmeos, possivelmente algumas das suas comédias dos anos 90 como Junior. Mas, mesmo que não tenha assistido, você sabe que existiu Os Caça Fantasmas.

É bem verdade que nenhum outro comandado por Reitman tenha alcançado tanto sucesso. Não ajuda a sua preferência por comédias muito muito bobas como as citadas acima. Mas aqui ele muda um pouquinho de direção com uma comédia romântica bem trabalhada. Não é extremamente inteligente nem profunda, mas está alguns níveis acima de seus outros trabalhos.

O casal principal é formado por Natalie Portman e Ashton Kutcher. Portman sai da sua excelente performance em Cisne Negro, que lhe consagrou finalmente como atriz, para um papel bastante confortável para artistas como ela. Kutcher, bem, como sempre, parece representar a si mesmo. E leva uma lavada de atuação de Portman em literalmente todas as cenas. Aliás, não só dela como do elenco de apoio, que vai de Kevin Kline aos não tão conhecidos Ludacris e Jake Johnson. Ainda assim, guardadas as proporções artísticas, a química do par funciona.

Funciona por não ser pretensioso. Pelo contrário, parece que Reitman conhece bem seus limites e não arrisca fora da zona de conforto. Feito na medida para agradar as mulheres, não vai entrar para o panteão das comédias românticas excelentes, mas diverte.

12 março, 2011

O Besouro Verde (The Green Hornet)




Todo mundo que gosta muito de cinema, do Bruce Lee, ou de ambos, sabe que o começo da carreira cinematográfica do mais famoso lutador de artes marciais da 7ª arte começou em uma série dos anos 60 chamada Besouro Verde. A série começou no rádio dos anos 1930 nos Estados Unidos, virou série pela Universal nos anos 1940, ganhou um filme em 1941, e renasceu, finalmente, como a versão coestrelada por Lee. Diz a lenda que Lee não respeitava a coreofrafia indicada para suas cenas pois as considerava falsas, e fazia na hora os movimentos que acabaram indo ao ar - e também dando a Kato mais destaque que o personagem principal.

Depois de virar cult e aparecer em quadrinhos e referências inúmeras em diversos filmes - sendo a mais famosa na primeira parte do Kill Bill de Tarantino - um novo filme do Besouro Verde esteve em vias de ser produzido desde o início do século XXI, quando a Miramax adquiriu os direitos. Inicialmente Kevin Smith seria responsável pelo roteiro e direção - o que de cara agradou muitos fãs e desagradou outros tantos. Muitas reviravoltas depois, coube ao comediante Seth Rogen escrever o roteiro, e a Michel Gondry - novamente para alegria e tristeza do público cativo.

A dupla Rogen-Gondry, com o apoio de Evan Goldberg - que trabalhou em todos os roteiros que Rogen já escreveu - fez um bom trabalho. O quanto a história respeita as origens dos personagens nos detalhes não é importante - há que se atualizar a trama, afinal. É tudo muito divertido.

O próprio Rogen faz o papel título, bem mais magro do o usual, mas engraçado como sempre, conferindo um tom tragicômico ao herói que agora é totalmente destituído de habilidades. Seu ajudante Kato é interpretado por um desconhecido - por aqui - Jay Chou, um cantor bastante famoso na Ásia em seu primeiro papel ocidental. Ele faz uma bela homenagem a Bruce Lee, inclusive ganhando a tela em todo momento - é certo que, neste caso, o roteiro também trabalha para isto. O elenco é muito bem completo por Tom Wilkinson e pelo excelente Christoph Waltz, a última descoberta de Tarantino.

Ainda que você conheça o personagem, é muito difícil que tenha visto mais do que alguns pequenos trechos em documentários da versão do Bruce Lee, portanto desfaça a cara feia e assista esta nova versão. Para quem não conhece, é um divertido contraponto ao universo de heróis que só cresce nas telonas.

06 março, 2011

O Mágico (L'Illusionniste)




Jacques Tati foi um dos grandes cineastas franceses do começo do século passado. Escreveu, dirigiu e atuou em várias ótimas comédias, marcando presença como o impagável personagem Sr. Hulot. Quando morreu, em 1982, deixou uma pequena obra-prima roteirizada, que por muito tempo ficou esperando alguém corajoso - e talentoso - o suficiente para realizá-la. Coube a Sylvain Chomet transformar a história em uma bela e sensível animação.

Chomet fez O Mágico no mesmo estilo do seu excelente As Bicicletas de Belleville. Animação clássica, com pouquíssimas e bem feitas interferências de CG apenas nas partes em que seria mais penoso animar à mão, e praticamente um filme mudo. Ainda assim, cheio de diálogos subentendidos.

O personagem principal, o velho e um tanto decadente ilusionista de salão, foi feito à imagem e semelhança de Jacques Tati, e há outras diversas referências ao cineasta pelo filme. Como sempre no cinema europeu, o ritmo não é aquele a que nós, criados sob altas doses das produções norte-americanas, estamos acostumados. Mas não dá para imaginar a história feita de outra maneira. Além de muito bonita, a animação nos toca com muita facilidade. Imperdível.

05 março, 2011

Rango (Rango)




Um dos maiores estúdios de efeitos especiais, o Industrial Light & Magic, de George Lucas, uniu-se a um dos maiores canais infantis para, juntos, entrarem no mercado das animações longa-metragem por computador - que ainda é quase monopolizado por Pixar, Dreamworks e BlueSky. Começaram por Rango, uma paródia dos faroestes spaghetti dos anos 1960 estrelada por animais capitaneada por Gore Verbinski, diretor da série Piratas do Caribe, com roteiro de John Logan, que tem no currículo grandes produções como Gladiador, O Aviador e O Último Samurai.

Um belo time, portanto, absolutamente necessário para tentar qualquer briga que seja com os três grandes. E percebe-se que o esforço foi grande. Do lado da modelagem e animação, tudo ficou ótimo. Detalhes, iluminação, física, está tudo ali enganando nossos olhos direitinho. O roteiro, como fazem a Pixar e a Dreamworks, trabalha ao mesmo tempo a diversão para os pequenos e as sutilezas para os adultos - mas a balança pende ligeiramente para o lado destes.

Infelizmente, a maioria das cópias nos cinemas brasileiros será dublada, mas espera-se - e há alguma confirmação por parte das críticas nos sites de lá - que os trabalho de Johnny Depp, Isla Fisher, Abigail Breslin, Alfred Molina e Bill Nighy tenham sido muito bem feitos. O roteiro poderia ter sido um pouco melhor trabalhado - e é justamente esse o maior trunfo dos concorrentes. Faltou um pouco de continuidade e aprofundamento, a impressão é de que quer-se resolver tudo em apenas um punhado de cenas. Ainda não é páreo para os grandes, mas foi um bom começo.