Lembro-me de ter lido - e descoberto - Jorge Amado na adolescência, com Capitães da Areia. Uma leitura deliciosa, nas passagens bem compostas, no tratamento cultural do cenário, na história rica. Confesso com alguma vergonha que não conheço a fundo a obra desse grande autor brasileiro, mas do pouco que li, Capitães sempre foi o meu preferido. Ainda é nítido pra mim o espanto de ver um livro tratar abertamente de assuntos que ainda eram controversos à época em que o descobri, e saber que a obra era ainda mais antiga, de 1937 para ser mais exato. Já havia ali uma visão que hoje ainda é rara.
Por isso recebi, como sempre, com um misto de ansiedade e apreensão a notícia de que seria adaptado para o cinema. Meu primeiro receio foi que caíssem na tentadora armadilha de atualizar a trama para os tempos atuais, mas maior ainda foi de que a profundidade da história fosse perdida em nome das bilheterias. Felizmente o comando da adaptação estava nas mãos de Cecília Amado, neta do escritor, que assina a produção, o roteiro e a direção. Ela, que já trabalhou como continuista em outra obra adaptada de seu avô, Tieta do Agreste, consegue passar para a grande tela um cenário com quase tanto sabor quando o livro - aplausos também para o co-diretor e responsável pela fotografia, Guy Gonçalves.
O elenco, a exemplo de outro grande filme nacional, Cidade de Deus, é composto em grande parte por não-atores mirins, muito bem recrutados e treinados. Toda a trupe de Pedro Bala é composta de rostos desconhecidos, mas que souberam transmitir como profissionais o misto de esperteza, maturidade e carência que forma a personalidade dos Capitães. Merecem destaque, além do próprio Pedro Bala feito por Jean Luiz Amorim, o Professor de Robério Lima, o Gato de Paulo Abade, e a Dalva de Ana Cecília. Mas o grande aplauso vai para a Dora de Ana Graciela, numa interpretação digna de prêmios.
A todos vocês que ainda viram o rosto e fazem caretas para o cinema nacional, Capitães da Areia é obrigatório, como foram o já citado Cidade de Deus e os dois Tropa de Elite. Além de ser cinema de primeira qualidade, é baseado em literatura brasileira de primeira qualidade. Claro, há concessões, e há faltas, mas o clima do livro, o charme, está todo lá. Espero que, além de levar multidões às salas, Capitães da Areia também desperte no nosso iletrado povo o desejo de conhecer mais esse grande autor.




