09 setembro, 2010

Nosso Lar




Anunciado como a maior produção cinematográfica brasileira até hoje, com números que são de fato espantosos no nosso mercado - e conquistando outros nas bilheterias - Nosso Lar pega carona na recente onda espírita no cinema brasileiro. Infelizmente, nem os números investidos, nem os obtidos, são sinais de qualidade - há vários exemplos disso, dos quais Avatar é certamente o mais retumbante. O filme é quase uma continuação da cinebiografia de Chico Xavier - foi baseado no seu livro psicografado mais famoso - mas consegue, mesmo com uma produção muito mais elaborada, ser ainda mais fraco que aquele.

A ousadia dos cineastas brasileiros em criar o visual do mundo espiritual descrito pelo espírito André Luiz a Chico Xavier está de parabéns. A forma como o fizeram, nem tanto. Chamar colaboradores de fora - como a empresa responsável pelos efeitos visuais Intelligent Creatures, o compositor Philip Glass e o fotógrafo Uri Steiger - não ajudaram a tornar o Nosso Lar factível como provavelmente a descrição do espírito tentou colocar. A cidade se parece com uma mistura de Brasília com a ideal Epcot City de Walt Disney. Só que feita de maquetes gigantes habitada por personagens em um chromakey ruim.

O uso do elenco é um pecado mortal por si só. Não me lembro de outra ocasião em que se conseguiu juntar tantos bons atores num mesmo filme brasileiro. E certamente não se encontrará outro em que foram tão mal utilizados. As atuações são muito boas quando não há diálogo. As falas, todas, sem exceção, são falsas e forçadas, e percebe-se que os atores têm dificuldade em fazê-las críveis. A falta de emoção dá a impressão de ser um grupo de amadores atuando - e está muito longe disso. Eles sofrem, mas o público sofre mais por ter que passar por tudo isso em meio a um filme arrastado, que carece de ritmo e erra em elementos básicos.

Wagner de Assis tem no currículo de direção apenas o médio e não muito conhecido A Cartomante, além das manchas graves de ter escrito quatro filmes da Xuxa. Ele praticamente não comanda o filme, que caminha nos próprios passos tortos. Este certamente será seu maior sucesso - já está perto de se tornar o maior sucesso do cinema brasileiro. Como toda história com temática muito fortemente ligada a religião, é um filme para espíritas, simpatizantes e para aqueles cujas convicções são facilmente conquistáveis. Esses acharão o filme sensacional, reconhecerão as descrições do livro e vibrarão a cada nova imagem mostrada. O público mais crítico provavelmente evitará apontar os diversos defeitos em troca de não iniciar uma discussão que não se conterá nos aspectos cinematográficos. E assim acabaremos idolatrando a mediocridade de uma produção que tinha potencial, mas não o alcançou.

Um comentário:

A Escafandrista disse...

eu não vi o filme, mas sei que foi sucesso de bilheteria. já fui espírita, mas hj não tenho mais religião, embora ache essencial estudar e conhecer e cultvar a própria espiritualidade. parabéns pelo blog, gostei ;)